20 de out de 2015

Os professores continuarão fazendo das escolas espaços de humanização.

Os professores continuarão fazendo das escolas espaços de humanização.
Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais…
Rubem Alves

Vivemos tempos em que permitimos pisotear flores, ignorar pérolas, subjugar pessoas e a mãe natureza. Estamos vivendo tempos em que é permitido menosprezar aquelas e aqueles que, heroicamente, tecem histórias suas, e de outros, construindo o mundo da vida e da sabedoria. Estes são tempos em que aqueles que cuidam, não são cuidados. Aqueles que educam, não são valorizados. Aqueles que amam, sofrem com o deboche e o desprezo daqueles que não acreditam mais no amor.
A vida dos que chamamos mestres, educadores, professores, infelizmente, também é triste e desmotivada. Sim, logo aqueles e aquelas dos quais a sociedade ainda espera muito (saber, sabor e sabedoria). Pouco valorizados e feridos em sua dignidade, estes resistem bravamente. Os educadores e educadoras, como os demais humanos, são movidos por suas utopias e paixões. Mas a realidade cotidiana é sempre dura, reveladora e cheia de contradições.  A escola tornou-se um lugar de onde se espera muitas soluções; muitas delas estão muito além das demandas de ensino-aprendizagem e das competências a partir das quais a mesma se organiza.
Pouco valorizados e feridos em sua dignidade, estes resistem bravamente. Os educadores e educadoras, como os demais humanos, são movidos por suas utopias e paixões. Mas a realidade cotidiana é sempre dura, reveladora e cheia de contradições.
Os professores não deveriam, mas já se acostumaram. Acostumaram a ganhar baixos salários. Acostumaram a ter de trabalhar 60 horas semanais para garantir mais dignidade à sua família. Acostumaram a aceitar todo o tipo de pressão que a sociedade e os governos exercem sobre seu ofício e sobre a escola. E agora, pasmem, alguns já estão se acostumando com a desesperança, que pode ser lida na expressão de seus rostos e de seus olhares. Uma constatação triste, pois sempre foram e ainda são vistos pelos adolescentes e jovens como um alento da esperança.
Nossos professores e nossas professoras estão doentes e estressados. Cuidaram, encaminharam e salvaram vidas alheias, mas não dedicaram o devido tempo para cuidar de sua própria vida. Como contemporiza a escritora Marina Colasanti, “eu sei que a gente se acostuma, mas não devia. A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. A gente se acostuma para poupar a vida, que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma”.
Os professores continuarão fazendo das escolas espaços de humanização. Acreditam que, através do conhecimento, todos os seres humanos podem ser cada dia melhores.
Apesar de já terem se acostumado com tantas coisas, a maioria mantém firme sua missão de semear esperanças. Muitos ainda alimentam orgulho de sua profissão. Converse com algum deles e você verá como resistem para não virarem números ou meras figuras decorativas. Muitos deles já pensaram em desistir, mas não conseguiram. “Desistir… eu já pensei seriamente nisso, mas nunca me levei realmente a sério; é que tem mais chão nos meus olhos do que cansaço nas minhas pernas, mais esperança nos meus passos, do que tristeza nos meus ombros, mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça” (Geraldo Estáquio de Souza).
Ainda que tomados por imensa paixão de ensinar e por uma coragem, que nem sempre sabem de onde vem, desejam compreensão e apoio para dar conta de grande missão de educar para a vida, para a cidadania, para o conhecimento. Os professores continuarão fazendo das escolas espaços de humanização. Acreditam que, através do conhecimento, todos os seres humanos podem ser cada dia melhores. Abençoados sejam!

23 de set de 2015

Religião ou Espiritualidade?

Religião ou Espiritualidade? Texto de Ed René Kivitz

Religião ou Espiritualidade? Texto de Ed René Kivitz

Destaque da Semana Dizem que Religião e Futebol não se discute. Será? Em tempos de Copa do Mundo tudo o que diz respeito a futebol é destaque, notícia e discussão. E quando a notícia mistura futebol com Religião? Um episódio envolvendo os badalados jogadores do Santos aconteceu há algumas semanas e chamou a atenção de todos. Os craques santistas fizeram uma visita a uma entidade chamada Lar Espírita Mensageiros da Luz, que cuida de crianças com paralisia cerebral. O objetivo era entregar ovos de Páscoa e passar algum tempo com as crianças. Mas, alguns dos atletas, entre eles, Robinho, Neymar, Ganso e Fabio Costa, se recusaram a entrar na entidade e ficaram dentro do ônibus do clube, sob a alegação de que são evangélicos e a entidade era espírita. Sobre o fato, Ed René Kivitz, cristão, pastor evangélico e santista desde pequenininho, fez a seguinte reflexão: “Os meninos da Vila pisaram na bola. Mas prefiro sair em sua defesa. Eles não erraram sozinhos. Fizeram a cabeça deles. Aliás, o mundo religioso é mestre em fazer a cabeça dos outros. Por isso, cada vez mais me convenço que o Cristianismo implica a superação da religião, e cada vez mais me dedico a pensar nas categorias da espiritualidade, em detrimento das categorias da religião. A religião está baseada em ritos, dogmas e credos, tabus e códigos morais de cada tradição de fé. A espiritualidade está fundamentada nos conteúdos universais de todas e de cada uma das tradições de fé. Quando você começa a discutir quem vai para céu e quem vai para o inferno, ou se Deus é a favor ou contra a prática do homossexualismo, ou mesmo se você tem que subir uma escada de joelhos ou dar o dízimo na igreja para alcançar os favores de Deus, você está discutindo religião. Quando você começa a discutir se o correto é a reencarnação ou a ressurreição, a teoria de Darwin ou a narrativa do Gênesis, e se o livro certo é a Bíblia ou o Corão, você está discutindo religião. Quando você fica perguntando se a instituição social é espírita kardecista, evangélica, ou católica, para decidir se deve ou não entrar nela, você está discutindo religião. O problema é que toda vez que você discute religião você afasta as pessoas umas das outras, promove o sectarismo e a intolerância. A religião coloca de um lado os adoradores de Allá, de outro os adoradores de Javé, e de outro os adoradores de Jesus. Isso sem falar nos adoradores de Shiva, de Krishna, os devotos do Buda, e por aí vai. E cada grupo de adoradores deseja a extinção dos que pensam e crêem de forma diferente, ou pela conversão à sua religião, o que faz com que os diferentes deixem de existir, pois se tornam iguais a nós, ou pelo extermínio puro e simples, como já aconteceu e ainda acontece ao longo da História, através de assassinatos em nome de Deus, ou melhor, em nome de um deus, com “d” minúsculo, isto é, um ídolo que pretende se passar por Deus. Mas quando você concentra sua atenção e ação em valores como reconciliação, perdão, misericórdia, compaixão, solidariedade, amor e caridade, você está no horizonte da espiritualidade que é comum a todas as tradições religiosas. E quando você está com o coração cheio de espiritualidade, e não de religião, você promove a justiça e a paz. Os valores espirituais agregam pessoas, aproximam os diferentes, fazem com que os discordantes no mundo das crenças se dêem as mãos no mundo da solidariedade, na busca de superação do sofrimento humano, que a todos nós humilha e iguala, independentemente de raça, gênero e, inclusive, religião. Em síntese, quando você vive no mundo da religião, você fica no ônibus. Quando você vive no mundo da espiritualidade que a sua religião ensina – ou pelo menos deveria ensinar, você desce do ônibus e dá um ovo de páscoa recheado de carinho, afeto e alegria para uma criança que sofreu a tragédia de uma paralisia cerebral.

8 de set de 2015

DOWNLOAD: LIVROS DIDÁTICOS


DOWNLOAD: LIVROS DIDÁTICOS


  • Livro de Biologia - Amabis e Martho (3V) download
  • Livro de Biologia - Sônia Lopes (volume único) download
  • Livro de Química - Feltre (3V) download
  • Livro de Química - Suplemento de Revisão - Moderna Plus download
  • Livro Fundamentos Matemática Elementar - Gelson Iezzi download
  • Livro de Matemática - Paiva (volume único)   download
  • Livro de Física - Antônio Máximo e Beatriz Alvarenga (3V) download
  • Livro as Faces da Física - Wilson Carron e Osvaldo Guimarães (volume único)  download
  • Livro de Física - Alberto Gaspar (volume único)   download
  • Livro Fundamentos da Fisica - Nicolau, Ramalho e Toledo (3V) download
  • Livro de Física - Kazuhito Fuke (V1)    download
  • Livro de Física - Kazuhito Fuke (V2)   download
  • Livro de Física - Kazuhito Fuke (V3) . . .
  • Livro Tópicos de Física - Gualter, Newton e Helou (3V) download
  • Coleção Passe Fácil no Enem download
  • Livro Análises Leituras Obrigatórias Fuvest e Unicamp download
  • Livros do Estado do Paraná   download

      Link único para Livros abaixo - download

  • Livro de Biologia - Sergio Linhares e Fernando Gewandsznajder (3V) 
  • Livro de Química - Martha Reis (3V) 
  • Livro de Química - Mortimer e Machado (3V) 
  • Livro Compreendendo a Física - Alberto Gaspar (3V) 
  • Livro Geografia Geral e do Brasil - Eustáquio de Sene (3V) 
  • Livro História Geral e do Brasil - Cláudio Vicentino e Gianpaolo Dorigo (3V) 
  • Livro História em Movimento - Gislane e Seriacopi (3V) 
  • Livro Contexto e Aplicações - Dante (3V) 
  • Livro Língua Literatura e Produção de textos - José de Nicola (3V) 
  • Livro Viva Português - Elizabeth, Paula e Silvia (3V) 
  • Livro Espanhol entre Contextos - Fernanda Castelano, Greice Nóbrega e Marcos Maurício (3V) 
  • Livro Espanhol Sintesis - Ivan Martin (3V) 
  • Livro de Inglês - On Stage - Amadeu Marques (3V) 
  • Livro de Inglês - Way to go - Kátia Tavares (3V) 
  • Livro Iniciação a Filosofia - Marilena Chauí (volume único) 
  • Livro Filosofia a Experiência do Pensamento - Sílvio Gallo (volume único) 
  • Livro Sociologia Hoje - Igor José de Renó Machado, Henrique Amorim, Celso Rocha de Barros (volume único)

        Link único para livros da Coleção Ser Protagonista abaixo - download

  • Livro Revisão - Biologia
  • Livro Revisão - Química
  • Livro Revisão - Física
  • Livro Revisão - História
  • Livro Revisão - Geografia
  • Livro Revisão - Português
  • Livro Revisão - Matemática
  • Livro Enem (Competências) - Biologia
  • Livro Enem (Competências) - Química
  • Livro Enem (Competências) - Física
  • Livro Enem (Competências) - História
  • Livro Enem (Competências) - Geografia
  • Livro Enem (Competências) - Português
  • Livro Enem (Competências) - Matemática

Cidadania corre riscos


Cidadania corre riscos
“A vida é uma eterna utopia de tentarmos ser bem mais do que simplesmente existir”. (Canuto Diógenes)
            É contagiante colher e sentir a energia que inspira a vida de nossa gente brasileira. Vivemos um momento histórico em que a realidade se sobrepõe às nossas filosofias, intencionalidades ou utopias. Das ruelas, dos becos e das esquinas das cidades de nosso país, dos nossos rincões, emana uma energia capaz de gerar novos desdobramentos que orientam a política de nosso país. Basta ir ao encontro de nossa gente para perceber uma revolução silenciosa de atitudes e consciências, impregnadas de um desejo cada vez maior de que todos sejam tratados como gente. Porém, esta cidadania hoje corre riscos.
            Ainda são muito insuficientes as oportunidades de vida, de trabalho, de educação, cultura e de lazer que foram conquistas do povo brasileiro. O nosso povo ainda sofre demais com as carências de vida e de oportunidades. No entanto, vive concretamente a melhoria de suas condições de comer, vestir-se, estudar, trabalhar e morar melhor. E, a partir destas condições, projeta um futuro melhor e sonha com muito mais oportunidades.
            Por muito tempo, utopia era profecia, promessa, discurso de mudança para a vida das pessoas. Ninguém sabia como engajar as mentes e os corações para a construção de um novo tempo de mudanças. Deste modo, a utopia era operada na dimensão política, politizando-a. As utopias estavam presas a um discurso político-ideológico e esperava-se que este discurso fosse capaz de impulsionar, por si só, grandes mudanças. Não só as grandes mudanças não aconteceram como o próprio discurso utópico perdeu seu sentido e valor para os nossos tempos. Mas pequenas - significativas mudanças - deram ao povo brasileiro o impulso que ele precisava para, por sua conta, construir um silencioso e importante processo de transformação de sua apatia em cidadania.
O povo segura, hoje, silenciosamente, muitas conquistas como uma casa, faculdade dos filhos, o emprego, comida de mais qualidade, a poupança, o carro, um trator, uma máquina. Mas não faz festa porque vivemos num tempo em que as conquistas correm sérios riscos. O alerta já está dado e vivemos com medo de um sinal vermelho! Ao invés de ampliar e consolidar conquistas sociais, este é um momento em que  precisamos lutar para que o Brasil não retroceda. Este é que deveria ser o autêntico sentimento de quem vai às ruas para protestar!
A maioria absoluta dos brasileiros e brasileiras nunca se dispôs a fazer uma revolução política e cultural, mas reconhece os investimentos e iniciativas que lhes deram melhores condições de vida e de cidadania. O desafio dos sindicatos, das cooperativas de produção e de crédito, das associações do comércio e indústria, de todas as organizações dos trabalhadores é lutar para que os rumos da economia sejam sem a perda de direitos e conquistas de cidadania. Experimentamos, nos últimos anos, uma cidadania ativa e não podemos descuidar para que fique em nossa lembrança como "cidadania de ocasião".
O Brasil fez a revolução da cidadania pelo viés do consumo. Agora, precisa emancipar a cidadania pelo viés da consciência e pela garantia dos direitos fundamentais, que somente serão efetivados pela luta e organização e com a união de todos os que acreditam que o desenvolvimento de uma nação se mede pela qualidade de vida social de sua população.
Sou um otimista do Brasil por conta de seu povo, mas temo que interesses difusos e interesseiros de alguns coloquem em risco as conquistas da maioria. Luto e insisto, teimosamente, que a cidadania seja vencedora.
            Nei Alberto Pies, professor e ativista em direitos humanos

Verdades de uma greve de servidores públicos

Verdades de uma greve de servidores públicos

São muitas as verdades que precisam ser anunciadas:
1. Os funcionários grevistas assumem compromisso ético e político muito sério: a greve não é em causa própria, mas em nome de todos os seus colegas. Por isso mesmo, a greve sempre é sustentada pelos mais coerentes, mais conscientes e mais seguros de si;
2. Críticas sempre são bem-vindas ao movimento, mas somente serão aceitas aquelas que vierem de quem luta. É muita covardia esconder-se atrás de certas críticas para não vir somar-se com a luta;
3. Além de ser um compromisso sério que tem horas e horários definidos, a greve também se faz de alegrias, de encontros, de convivências, de muitas trocas. Uma greve tem certa espiritualidade e se faz com compromissos de quem se soma para lutar. Por isso mesmo que grevistas tem todo direito de rir, de tomar chimarrão, de sentar em rodas, de ouvir músicas, de exibir-se em fotos. Uma luta boa se faz com alegria!
4. Quem luta também educa. Quem educa verdadeiramente, desestabiliza os acomodados. Ao nos organizarmos pacificamente, estamos ensinando ao conjunto da sociedade que é preciso organização quando os direitos são atacados;
5. Jornalistas e parte da imprensa que tentam nos jogar contra a população precisam nos escutar primeiro para entender nossas causas. Não somos, definitivamente, responsáveis pela situação na qual nosso último recurso foi a greve;
 6. Os números de grevistas não são o principal parâmetro para sustentar e legitimar uma greve. O que vale e sustenta as lutas é o que buscaremos numa negociação;
7. Mentes tranquilas, serenas e convictas incomodam os adeptos dos terrorismos, das ameaças, das punições e das simulações que tentam desestabilizar os manifestantes para desmerecer o mérito das lutas;
8. Greve do funcionalismo municipal ou estadual sempre busca aperfeiçoar e aprimorar a qualidade dos serviços públicos. Servidor valorizado cumpre função pública com maior interesse e motivação;
9. O desejo maior de quem está em greve é voltar ao trabalho, pois o local de trabalho é seu lugar de realização e a garantia de seu ganha-pão;
10. Todos os que ousam participar de uma greve, voltam transformados e revigorados para seus locais de trabalho. Aprendem, como ninguém, que não é bom ser escravo e que ser sujeito da sua história sempre tem preço, que sempre vale a pena pagar. Aprendem também que o ombro a ombro, o cara a cara e a solidariedade nos humanizam, transformando-nos em seres humanos melhores.

Nei Alberto Pies, professor, escritor e ativista de direitos humanos.

19 de ago de 2015

Espetáculos maniqueístas

Espetáculos maniqueístas

“Sei que em todas as multidões há quem sequer saiba por que esta lá e que o direito à manifestação é algo necessário e sagrado”. (Sueli Ghelen Frosi)

Vivemos espetáculos e somos midiáticos. Sem escrúpulos e sem vergonha, exibimos, instintivamente, o melhor do que carregamos, do que somos ou do que temos. Vimos, assistimos e acessamos - pelas mídias e redes sociais - conteúdos que não agregam os brasileiros no combate à corrupção como um dever cívico, permanente e sóbrio, respeitando os poderes constituídos e os regramentos da nossa Constituição Federal.  Nas mais recentes manifestações de rua pelo Brasil afora, em agosto de 2015, novamente assistimos alguns excessos e radicalismos dos que pretendem apontar mudanças para o país.
Ódio, raiva, estupidez, violência, despudor, arrogância e superioridade marcaram muitas manifestações públicas e midiáticas por este Brasil afora, mas sempre demarcando serem de “pessoas do Bem”. Que triste espetáculo proporcionamos para o mundo! Quero pelo menos alguns metros de distância das pessoas "de bem" que formam a massa crítica atual. Sei que em todas as multidões há quem sequer sabe porque esta lá e que o direito à manifestação é algo necessário e sagrado. Mas é preocupante convivermos com a maldade explicitada nas ruas, na medida em que se pede sangue, se legitima chacinas e enforcamentos. Estou muito mais assustada do que envergonhada. Você não?” (Sueli Ghelen Frosi)
Acredito que o bem e o mal não estão personificados em determinados grupos ou pessoas. Por isso, preciso indagar: a) Quem não quis, não concorda ou não se manifestou é uma pessoa do Mal? b) Pode o Bem estar “encarnado” em alguém ou num grupo de pessoas? c) Combater a corrupção passa, necessariamente, por afirmar um coletivo do Bem? d) Os brasileiros já decidiram que a corrupção é um problema suficientemente sério para ser levado a sério, até as últimas conseqüências e em todas as instâncias e instituições?
Estou lendo a obra “O Maniqueísmo em nossas vidas: a bondade dos maus e a maldade dos bons”, do autor Jorge A. Salton, Editora Movimento, lançada no dia 15 de agosto de 2015, em Porto Alegre. O autor joga luzes ao momento histórico que vivemos no Brasil. Em sua introdução, o autor afirma: “o pensar maniqueísta, a divisão entre nós, os bons e eles os maus, é sinal patognomônico do surgimento da maldade – no sentido de sinal ou sintoma que por si só afirma a presença de algo. Ao dissecar o fenômeno, encontraremos, em sua base, o reducionismo, a generalização, a dogmatização, uma forma de pensar que, a partir de uma suspeita qualquer, já salta para a conclusão, a ausência de autocrítica, a inexistência de empatia e a necessidade de inimigos”.
O livro sobre o maniqueísmo invoca em mim a revisão de conceitos, atitudes e pensamentos. Está mexendo nos meus modos de ser, pensar e agir no mundo. Estou convencido de que deverei eliminar as tentações maniqueístas de enquadrar, julgar ou condenar os outros, até alcançar um pensar empático e pluralista, para perceber a realidade e construir vivências positivas. Por outro lado, teimo no meu direito de dizer o que penso dos recentes fenômenos públicos que insistem em aplicar um golpe na democracia brasileira, através de um impedimento (impeachment). Pelo respeito à democracia e ao sagrado voto, deixemos a presidenta Dilma governar e respeitemos os princípios democráticos e de direito que a todos são estendidos pela Constituição.
Governar não é tarefa de anjos, é tarefa de pessoas que erram e acertam; que não são inteiramente boas nem inteiramente más. Estes que se denominam “Exército do Bem” e que afirmam carregar consigo os mais nobres desejos de mudança no Brasil valem-se de ideias maniqueístas. Estas ideias não colaboram com o pluralismo e o respeito, essências da democracia.
Nei Alberto Pies, professor, escritor e ativista de direitos humanos.

2 de jul de 2015

Ci-da-de mágica!?

Uma cidade linda! Tudo brilha, tudo é tomado de cores, cheiros e sabores. A cidade tem luz e alegria para todos, bebês que são tesouros, farmácias em todas as casas, educação que transforma o mundo. Obras e inovações não param de ser anunciadas!
Não é maravilhosa? Ninguém triste e nem doente, ninguém reclama saúde, educação, segurança e moradia. Todos os problemas de ontem parecem estar resolvidos hoje ou, no máximo, amanhã de manhã.
 Precisaram passar 150 anos para esta cidade despertar! Cidade mágica possui um líder que brilha e fala maravilhas. Possui boa oratória e a mídia gosta dele.
Cidade mágica constrói shoppings e abre muitas farmácias. Abre cursos de medicina, mas fecha livrarias, bares, cafés e cinemas. Não tem calçadão e nem um grande parque para sua gente caminhar, andar de bicicleta, fazer piquenique, admirar a natureza e o ruído e barulho dos pássaros.
Ciclistas e pedestres descobriram a maravilha de caminhar e andar, mas o espaço para estes fins precisa ser compartilhado e é muito pequeno. Nesta mágica cidade realizam-se eventos culturais, de literatura, de folclore e grandes schows musicais. Quem pode pagar apenas assiste, e gosta!
A cidade é apenas mágica, mas alguns a pretendem cosmopolita. Com muita insistência, escondem o jeito provinciano de ser. Do amanhecer ao anoitecer, a cidade é sonorizada com o cantar seresteiro de um importante pássaro brasileiro. “Cidade inteira fica muda ao seu cantar, tudo se cala para ouvir sua canção”.
Magias são criadas e impulsionadas pelo glamour do marketing e das propagandas: sempre lindas, coloridas, sofisticadas, mágicas. Estas vendem mundos que contrastam com a dureza e as lutas cotidianas do povo que escolheu esta cidade para viver e morar. A magia rege um espetáculo de uma vida irreal. Tudo o que é anunciado fica como se já estivesse feito, há muito tempo. Os verdadeiros artistas do espetáculo cotidiano de vida e de trabalho tornaram-se sujeitos passivos e coadjuvantes.
Vamos embora, minha gente, que a cidade precisa de espetáculos! Neste contexto singular de uma cidade mágica, os problemas da vida real são manipulados, maquiados e esquecidos. É duro demais acordar, todas as manhãs, sem poções mágicas! Viva os espetáculos! A vida, que espere um pouco mais!
Uma dúvida paira no ar: até quando os habitantes desta ci-da-de suportarão as ilusões, os espetáculos e as magias que não consideram a vida como ela é?

*Nota de advertênciaesta cidade mágica existe e afirma-se cada vez mais como indutora do desenvolvimento da grande região do Planalto Médio do RS. É também orgulho para todas as pessoas que moram aqui.
Nei Alberto Pies, professor, escritor e ativista de direitos humanos.

30 de jun de 2015

Direitos humanos: tudo a ver com nossa vida!

Direitos humanos: tudo a ver com nossa vida!
"Como seres humanos a nossa grandeza reside não tanto em ser capazes de refazer o mundo… mas em sermos capazes de nos refazermos a nós mesmos”. (Mahatma Gandhi)

O conceito de direitos humanos faz-se historicamente, assumindo diferentes abordagens e perspectivas, gerando diferentes posturas e compreensões. Nasce, contudo, a partir da consciência e necessidade de preservar a vida e tudo o que nela está imbricado. Ao longo dos tempos, o conceito foi sendo construído culturalmente como se os sujeitos destes direitos fossem os outros, aqueles que estão numa situação de extrema indignidade,  e nunca a gente (eu, você e nós). Há, então, a necessidade de compreender melhor o conceito de direitos humanos para que dele nos sintamos parte.

Sob o ponto de vista da compreensão histórica, os direitos humanos constituem-se a partir do reconhecimento, muito antes de constituírem faculdade de um ou de outrem . A defesa da vida, que também defesa da dignidade humana, engloba o que a humanidade, através de muita luta e conquista, reconheceu como direitos humanos. O que vem a ser dignidade humana? É difícil definir, mas entendemos quando ela falta a alguém (como aquilo que define a própria noção de humanidade, enquanto condições mínimas, básicas e elementares para sermos gente). O nosso cotidiano está repleto de infinitas realidades de indignidade, basta ativar a nossa sensibilidade e o nosso olhar.
A mesma cultura que nos fez acreditar que direitos humanos não são os nossos direitos de ser gente (de ser humano) também alimentou a falsa ideia de que, ao afirmamos os direitos das pessoas, estaríamos abrindo mão de seus deveres. Sempre nos foi dito, mesmo que não explicitamente, que temos mais deveres a serem cumpridos do que direitos a serem gozados, usufruídos. Muitas vezes entenderam-se direitos como privilégios de uma classe social, povo ou nação, em detrimento dos demais. Ocorre que, a cada direito que conquistamos, naturalmente, sem dizê-lo, está imbricado um dever. Direitos e deveres chegam juntos, não existem separados como muitos supõem.

Mas como criar identidade com direitos humanos? É preciso considerar a si mesmo e aos outros sujeitos de direitos, de liberdade, de dignidade: ao mesmo tempo diferentes e iguais uns em relação aos outros. O que todos temos em comum é que somos humanos e comungarmos das mesmas necessidades. Todos como eu e você são seres humanos, portadores de algo sagrado e inegociável: a vida da gente. 


Desconhecemos outra maneira de mudar culturalmente conceitos ou ideias senão pela educação. A educação em direitos humanos significa educar para a democracia, oportunizando que os cidadãos tenham noção de seus direitos e deveres e que lutem por eles. É papel da escola, e da educação, contribuir para a compreensão do mundo, para uma melhor inserção nele. A cultura de direitos humanos promove condições em que ocorram a tolerância, o diálogo, a cidadania, a diversidade. Deve também permitir a liberdade de organização e luta aos grupos organizados em torno de seus direitos. Deve exigir um Estado protetor e promotor de direitos humanos, e não violador da vivência da cidadania e das liberdades. A consciência, quando transformada em luta (diária, cotidiana, permanente), é quem garantirá a exigibilidade de nossos direitos.

Educação em direitos humanos não é somente um conteúdo a ser ensinado, mas pressupõe, antes de tudo, a vivência de valores e atitudes que cultivem a preservação da vida, das singularidades e das diferenças. Para mudarmos atitudes e conceitos precisamos ser motivados, sensibilizados e estimulados a compreender o ser humano em suas diferentes situações e realidades.
O reconhecimento de nossas diferenças e das múltiplas formas de ser, pensar e agir abrem horizontes para perceber e acolher a necessidade do outro. Eu, você e nós conquistaremos felicidade quando pudermos compartilhar vida plena, na humanidade que reside em cada um e cada uma de nós. Por isso mesmo, direitos humanos sempre tem a ver com a nossa vida.

*Nei Alberto Pies, professor, escritor e ativista de direitos humanos

10 de jun de 2015

Ciranda da felicidade.

Ciranda da felicidade.

Quando chega dezembro, a tendência das pessoas é tornar mais evidente seu cansaço e stress pelo trabalho e empenho de um ano inteiro. Mas aí chegam também as esperanças renovadas pelas festas de final de Natal e final de ano, emendadas com as férias docentes. Para os professores em Ciranda, chegou também a oportunidade de discutir felicidade, antes mesmo do término das atividades escolares e das grandes festas.
A Ciranda pretendia discutir Para quê ser feliz? A convidada, uma psicóloga chamada Ana Manoela inverteu, desde o início de sua provocação, as perspectivas do senso comum de felicidade.  Começou citando Samuel Becket:  “passa-se a vida esperando que disso resulte uma vida” . Emendou dizendo que vivemos verdadeira ditadura da felicidade e bem estar. Que existem ideais de felicidade, sempre metricamente projetados com metas e objetivos. Que a felicidade geralmente condiciona-se ao SE....  e somente SE... (um evento do futuro). Provocou-nos dizendo que o esforço que a gente faz para ser feliz é, muitas vezes, justamente o que nos deixa tristes e frustrados por não conseguirmos alcançar o que desejaríamos.
A frustração, a palavra NÃO, constituem o indivíduo. Ninguém faz sua vida só recebendo elogios e estímulos. A vida de todos é permeada por constantes questionamentos e críticas. Mas parece que as tristezas, as críticas e as cobranças não servem para nossa realização humana. Mas quem disse que sentir-se triste e infeliz é menos nobre que a felicidade? A crítica me fará muito mal se eu tiver internalizado comigo que sou um fracassado, uma pessoa fraca e infeliz.
A verdadeira felicidade não está condicionada a algo ou alguém, ela sempre é resultado de um processo interno e individual. Dito de outra forma: a felicidade parece nunca estar fora da gente, mas faz sempre parte da gente. Vem de dentro da gente.
O Brasil, segundo recentes pesquisas sobre felicidade, estaria à frente de Alemanha e França, justamente países onde há maior ingestão de medicamentos depressivos. Por que seríamos mais felizes do que pessoas de outros países?
A felicidade na perspectiva da Cirandeira é uma construção pessoal e social. Ninguém é feliz no meio do CAOS. Por isso mesmo, cada um deve descobrir razões pelas quais vale a pena viver e doar a sua vida.
Finalizando sua função provocadora, Ana Manoela surpreendeu ao afirmar que sangue não faz vínculos e não alimenta afeto, necessariamente. Que ninguém tem obrigação de amar alguém, mas que a vida e a felicidade se fazem a partir de vínculos e reciprocidades.
As experiências individuais relatadas serviram felicidade para que nos percebêssemos próximos na busca, mas muito diferentes nos resultados e nas vivências cotidianas deste nosso maior desejo humano. Foi uma Ciranda muito rica, densa e reflexiva, com oportunidades para todo mundo dizer-se!

Nei Alberto Pies, professor, escritor e ativista de direitos humanos.

21 de mai de 2015

Ser humano não é descartável

Ser humano não é descartável

“A essência dos direitos humanos é o direito a ter direitos”. (Hannah
Arendt, filósofa)

        Militantes e ativistas de direitos humanos sempre se somaram a
deputados e deputadas que colocarem seus mandatos parlamentares à
disposição das lutas pelos direitos humanos. Nunca foram muitos, mas
foram importantes para tornar públicos os debates e as lutas de quem,
anonimamente ou em grupos formados por ONGs, levantava as bandeiras em
defesa da dignidade humana. Nos últimos anos, além do arrefecimento e
dificuldade das lutas por dignidade, parte da esquerda brasileira
deixou de ver direitos humanos como uma possibilidade de disputa
política e social. Lutar por direitos humanos parece ser uma atitude
indigesta, difícil e sem dividendos políticos. Ao mesmo tempo, por
força cidadã e articulada de milhares de brasileiros, há avanços
importantes que afirmam a cidadania, a liberdade, a dignidade humana e
os direitos humanos.
A novidade é que esta pauta política despertou as forças mais
reacionárias e retrógradas deste país. Estas “vociferam” contra as
conquistas das minorias, dos pobres e oprimidos, dos gays,
homossexuais e lésbicas, das crianças e adolescentes, contra todas as
conquistas sociais e de inclusão. Os pobres e minorias deste país são
duplamente discriminados: pela situação em que se encontram e por
manifestarem desejo, força e organização para lutar. Este contexto
está gerando novos fundamentalismos que tentam afrontar e derrubar
conquistas e avanços democráticos, com ameaças ao Estado de Direito.
Nunca estes avanços e conquistas estiveram em tamanha vulnerabilidade
e questionamento e nunca o ódio foi o combustível tão largamente
utilizado para desconstruir a cidadania.
        Conheci as lutas de direitos humanos no tempo em que Marcos Rolim,
deputado estadual, promovia no Rio Grande do Sul Conferência Estadual
de Direitos Humanos com o tema: “Nenhum ser humano é descartável”.
Desde àquela época até hoje, 2015, muita coisa mudou. Além dos
direitos individuais, direitos econômicos e sociais foram
concretizados. No entanto, a defesa das causas sociais, a partir de
mudanças na estrutura, organização e concepção de sociedade, sempre
foram duramente combatidas pelos defensores do “status quo”.  Hoje,
enquanto o líder papa Francisco faz movimentos mundiais em favor da
paz, da tolerância e em defesa dos direitos humanos e sociais,
Bolsonaros e outros tantos criam no Brasil ambiente de disseminação de
ódios, intolerâncias e criminalização.
        A criminalização é a face mais perversa do Estado e da sociedade
porque não permite que a cidadania seja exercida na perspectiva dos
“sujeitos de direitos”. Quem luta por seus direitos e pelos direitos
dos outros é ligeiramente taxado, acusado e condenado sumariamente. Os
estigmas e preconceitos sociais atribuídos àqueles que lutam anulam a
possibilidade de uma cidadania plena e ativa.
        A democracia, como possibilidade de reclamar direitos, ainda está
longe de ser uma realidade brasileira. Maria do Rosário, deputada
federal do RS, foi eleita “musa dos desafetos de direitos humanos
fundamentais do povo brasileiro”. Rosário, Rolim e outros tantos
corajosos militantes de direitos humanos já emprestaram sua vida, suas
histórias, suas vozes e suas lutas pelos mais fracos, oprimidos e
explorados em nossa sociedade, em defesa da dignidade humana de todos,
indistintamente. Estes lutadores sociais sabem que direitos humanos
trazem, na essência, o direito a ter direitos. Por isso mesmo,
fortalecem-se nas lutas, nas conquistas e nas realizações de cada e de
todo ser humano que tem a possibilidade de desabrochar, de viver bem e
de ser feliz!
        Vida longa a todos os que ousam lutar! Lutar por direitos não é crime!

Menino sonhador

Menino sonhador

Um menino sonhador morou no interior até seus 20 anos, dedicando parte de seu tempo-criança para conversar com a lua. Inspirava-se nos seus raios e buscava luzes para seus caminhos, especialmente em noites de lua cheia. Cantarolava a esperança, para aliviar ansiedades. Dividia seu tempo entre o trabalho na roça, os estudos escolares e o acalentar de sonhos, no princípio de muitas noites. Sua família pobre e humilde, com muitas dificuldades, soube arquitetar sonhos e desejos para que todos, mais tarde, pudessem superar sua “miséria minifúndia”.
A ansiedade deste menino era descobrir como ser “reconhecido pelos outros”. Sua primeira tentativa foi pela fama: alimentou a ilusão de ser um grande cantor. Imaginava palcos, aplausos e muito reconhecimento. Começou a cantar no coral de sua igreja, mas parou por aí.  Enquanto estudava, viveu a tensão de ser querido e discriminado. Era muito gago, o que lhe rendia muitos preconceitos e discriminação. Mas como ninguém é zero em tudo, aprendeu cedo a compensar este seu limite de comunicação (falada) com leituras e boa escrita. Escrever tornou-se, então, uma grande necessidade, uma forma de se parecer bonito aos outros.
Depois imaginou superar sua “pequenez” ingressando no seminário. Alimentou por alguns anos o desejo de ser padre, bom comunicador e missionário. Decepcionou-se com alguns religiosos porque estes não souberam ajudá-lo e compreendê-lo.
Embora todas estas experiências fossem insuficientes, o jovem moço descobriu que cada uma delas foi fundamental para constituí-lo forte e capaz. Descobriu-se professor, fazendo das práticas pedagógicas lugar de descobertas e afirmações de suas crenças e experiências. Passou a acreditar muito nos potenciais humanos. Passou a acreditar que não nasceu humano, nem professor e nem escritor, mas que sempre está sendo quem é.
Este menino sonhador hoje tem 41 anos. Conta sua história por reconhecer que a história de todo mundo é feita de superação. Acredita que o maior desafio dos seres humanos é sua humanização. Humanizar-se significa tornar-se um ser humano melhor, mais completo e realizado. Por isso afirma que as escolas podem ser espaços de humanização através do conhecimento, da integração e da convivência que acontecem entre os sujeitos da educação: os professores e os alunos.
Este menino sou eu. Tenho minha história, uma família e um primeiro livro. “Conviver, educar e participar” são importantes verbos da existência humana. Verbos ensejam ação humana. Conviver é importante porque não somos felizes sozinhos, embora muitos desejassem. Educar porque nunca estamos prontos e sempre devemos querer aprender. Participar porque fazemos parte do mundo e podemos contribuir para os rumos que queremos para ele. O grande palco: nossa vida. Na vida nos fazemos gente, seres humanos. No encontro com os outros ampliamos as oportunidades de realização. Convivendo nos percebemos frágeis e incompletos, mas também fortes porque somos interdependentes e nos realizamos a partir do amor, do cuidado, da solidariedade e da compaixão.
Além do livro sou colaborador de diversos revistas e jornais do Rio Grande do Sul e do Brasil, assino colunas em sites e tenho minha própria página: neipies.com  Sou professor da rede pública. Além de escrever e publicar, estou disponível para palestras e trocas com grupos de professores ou outros profissionais que trabalhem com cidadania, educação e direitos humanos.

Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos.

5 de abr de 2015

Generalizações destrutivas

Generalizações destrutivas
Vivemos um momento histórico bem controverso. A defesa do bem e do mal se alicerça em fundamentalismos sem fim. Abrão Slavutzki, psicanalista, articula brilhantemente em artigo “Simplificações perigosas”, publicado em ZH do dia 01 de abril de 2015: “as simplificações são perigosas, pois nos empolgam com explicações fáceis para tudo. Os ódios crescem contra os únicos culpados de todo o Mal. Encontrar o bode expiatório é a salvação do mundo. Começa assim a se abrir o caminho para as ditaduras”. Em tempos de frágil democracia, é preciso perguntar-se pelas conseqüências destas posições antagônicas.
Há cada vez mais gente querendo ser "uma pessoa de bem". Em busca de explicações e razões de ser deste desejo, comecei a conversar e pesquisar. Para minha surpresa, muitos concordam na percepção de que há uma multidão querendo "ser do Bem". Confessaram-me que muitos necessitam dizer-se do Bem, para diferenciar-se dos demais. Decidi então sugerir a estes a organização de uma Irmandade ou um "Partido do Bem". Como partido, democratizando nossas ideias, poderiam representar o Bem como poderosa ferramenta para combater todo o mal, principalmente as sofisticadas maracutaias que teimam em "tomar nosso dinheiro público”. Tal ação favoreceria todos que desejam ser do Bem agrupar-se, criando uma Plataforma de Intenções, para promover debate mais amplo sobre o que vem a ser o próprio Bem.
É necessário compreender a nossa dimensão humana, pois somos, por natureza humana, um pouco bons e um pouco maus. Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno, estamos sempre em busca do necessário equilíbrio. As religiões e as diferentes filosofias sabem disso, por isso sua insistência em ajudar a equilibrar os pensamentos e as ações cotidianas. Por sua vez, aqueles que precisam diferenciar-se dos outros devem sofrer por seu perverso egoísmo. Só o ego pode explicar a razão de ser daqueles que necessitam se declarar pessoas de bem. O reconhecimento do bem e da maldade que a gente faz, pelas palavras e pelas ações, sempre é prerrogativa dos outros. Não pode ser jamais prerrogativa subjetiva, para alguém achar-se superior ou mais importante do que os outros.
Pelas razões expostas, é preciso perceber que as simplificações como as generalizações em nada contribuem para enfrentarmos um problema nacional agora amplamente debatido em nossa sociedade: a corrupção brasileira. Como Abrão, acredito também que a corrupção “se combate com a Justiça e o engajamento da sociedade, respeitando a democracia”.  Quanto aos políticos, é preciso compreender as contradições do exercício do poder. Os políticos posicionam-se a partir das conjunturas e contextos de cada momento, das articulações e negociações que são possíveis para aprovar os projetos que estão em pauta, das forças sociais que estão mobilizadas em cada momento histórico. É natural que joguem com seus interesses pessoais, mas é inaceitável, numa democracia, que estes se sobreponham aos interesses coletivos.
Não matemos nem a política e nem a democracia! Quando as palavras se tornam absolutas, a vida em sociedade perde seu sentido e seu valor.
Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos.

23 de fev de 2015

Ensino religioso: conhecimento que gera espiritualidade.

Ensino religioso: conhecimento que gera espiritualidade.
“O traço de união que une todas as religiões é a espiritualidade”. (Adelmar Marques Marinho)

Com orgulho da profissão e responsabilidade com o conhecimento, anuncio o meu retorno às salas de aula neste ano de 2014. Desafio-me, mais uma vez, confrontar meus conhecimentos sobre a vida humana, a busca pelo Transcendente e a vivência da fé e das crenças com os conhecimentos de meus alunos que são crianças, adolescentes e jovens: seres humanos em formação.
O Ensino Religioso ministrado nas escolas públicas não é mais catequese, não é aula de religião e muito menos lugar para rezar e orar. O Ensino Religioso é a oportunidade de conhecimento das diferentes religiões com o intuito de respeitar e reconhecer as diferentes crenças e práticas religiosas que coexistem na sociedade. O objetivo é o diálogo interreligioso como pressuposto para construção de relações de respeito, reverência e paz, solidariedade e paz no mundo.
O caminho é temerário e em “terreno movediço”, pois envolve o que muitos consideram muito sagrado: sua fé. Mas o medo não pode impor pânico, senão paralisa; nos deixa sem ação. O medo é importante para a proteção, pois faz considerar os riscos de cada ação. Quando reconhecemos os outros, suas vivências e sua fé, geramos “espiritualidade”. Espiritualidade acontece quando não temo os outros; antes, associo-me a eles para juntos descobrirmos a alegria de viver conjuntamente, apesar das diferenças.
Nem padre, nem pastor ou líder religioso, sou professor! Como líder religioso, falaria apenas a partir de uma religião. Como professor, posso apresentar o conhecimento acumulado de várias religiões, sem comparar e desmerecer uma em detrimento de outra. É direito dos alunos o conhecimento das diferentes religiões. É seu direito também o conhecimento dos fundamentos de cada e de todas as tradições religiosas. Conhecer as manifestações do sagrado e do Transcendente nas diferentes religiões ou tradições religiosas tem o propósito de aprender a respeitá-las.
Ainda existe grande confusão sobre as práticas pedagógicas da disciplina do Ensino Religioso nas escolas públicas de nosso país. Bem verdade também que nem todas as redes de ensino preparam bem seus professores para trabalhar com Ensino Religioso. Por desconhecimento ou preconceito, nem sempre a comunidade entende o papel do ensino religioso nas escolas. O Ensino Religioso, no atual paradigma, cumpre importante papel na formação integral do ser humano, no reconhecimento das dimensões históricas, psicológicas, sociais, culturais e religiosas de cada ser humano e de todo mundo.
Mestres (os professores) ou religiosos (líderes das religiões) podem tornar-se importantes referências de vida e conhecimento para as diferentes juventudes que estão a desabrochar. Juventudes que perguntam. Juventudes que desafiam. Juventudes que buscam respostas e precisam de horizontes. Juventudes que revelam necessidade de religião e de espiritualidade.
É um desafio integrar os diferentes conceitos, habilidades e atitudes que as outras áreas do conhecimento despertam em nossos adolescentes e jovens. Igualmente, é desafiante integrar às aulas os diferentes saberes gerados na comunidade, nas famílias, nas ruas e no cotidiano de todos nós.
Não espalhemos, jamais, o medo de conviver! Perderemos oportunidades de compreender as diferentes percepções da vida, de religiosidade e de mundo que existem entre nós. Nada recomendável num mundo que se enche cada vez mais de religião e se esvazia de espiritualidade.
 Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos.