22 de ago de 2011

14ª Jornada Nacional de Literatura - Passo Fundo, RS.

De palavras e profecias

“As pessoas escrevem a partir de uma necessidade de comunicação e de comunhão com os outros, para denunciar aquilo que machucava e compartilhar o que traz alegria. As pessoas escrevem contra sua própria solidão e a solidão dos demais porque supõem que a literatura transmite conhecimentos, age sobre a linguagem e a conduta de quem a recebe, e nos ajuda a nos conhecermos melhor, para nos salvarmos juntos. Em realidade, a gente escreve para as pessoas com cuja sorte ou má sorte se sente identificado: os que comem mal, os que dormem pouco, os rebeldes e humilhados desta terra; que em geral nem sabem ler” (Eduardo Galeano, In: Vozes e crônicas. São Paulo: Global/Versus, 1978)

A 14ª Jornada Nacional de Literatura, que acontece em Passo Fundo, RS, é um evento grandioso, de relevância cultural e literária, que corrobora com a convicção de que palavras só adquirem sentido quando colocadas em movimento. A Jornada Nacional de Literatura e a Jornadinha fazem parte de um enorme esforço de um grupo de pessoas que, por suas crenças e ideários, re-afirmam o papel da literatura em nosso momento histórico.
Na condição de participante/expectador deste grande evento literário gostaria de referir a necessidade que temos de justificar a importância e o uso das palavras. Vivemos num momento histórico em que tudo parece ser passível de coisificação e preço, inclusive as obras da criação humana. Perdemos a noção do conceito de valor, atributo que só poderia ser conferido a quem cria e transforma mundo e humanidade: o próprio ser humano. E a literatura, por ser obra da criação humana, não tem preço, mas tem valor. Por isso mesmo ela deveria ser um produto cultural disponível e acessível a todos, independente da condição social, econômica ou cultural. Deveria ser amplamente divulgada e apreciada como parte da nossa constituição de sujeitos sociais, de nossa cidadania e de nossa democracia.
Eduardo Galeano, em seu texto Em defesa da palavra, profetiza que a escrita não possui razões para justificar-se solitariamente. A escrita, na sua visão, “só pode ser útil quando coincide de alguma maneira com a necessidade coletiva de conquista de identidade”. Dito de outra forma, o escritor afirma seu desejo de ajudar muitas pessoas a tomarem consciência do que são. Ele está falando da função social que a literatura exerce sobre a vida de uma comunidade, a vida de uma nação. “Que bela tarefa a de anunciar o mundo dos justos e dos livres! Que função mais digna, essa de dizer não ao sistema da fome e das cadeias – visíveis ou invisíveis!”
As palavras morrem se não as colocarmos em movimento. E não serão os mais modernos meios de comunicação e entretenimento que tornarão mais disponíveis as obras literárias, criando a tão almejada cultura da leitura. As palavras escritas, contadas e recontadas, sobreviverão se formos capazes de viver o espírito literário da criação, da imaginação e da projeção de um mundo mais humanizado, mais solidário, mais cheio de alegria e mais vazio de tristeza e decepção. A literatura anuncia um mundo novo, criando ferramentas e habilidades capazes de nos fazer mudar a realidade que, de tão nua e crua, parece nem sempre permitir a busca de soluções.
Por mais individualizados e egocêntricos que possamos ser, desejamos participar dos movimentos desencadeados pela arte e pela criação humanas. Seja nas relações interpessoais, nos eventos culturais, nos grupos sociais dos quais fazemos parte, estamos sempre arrumando formas e jeitos de nos comunicar, de fazer as palavras circularem sentidos e impressões de nossa vida individual ou coletiva. Mesmo quando esta busca é individual, o processo envolve os outros, como no relato que segue: “Triste, tuitou "Sinto-me só!”. Setenta milhões retuitaram e novecentos mil responderam "Eu também!"(Cem toques cravados, Edson Rossatto)
Dá para pensar um mundo sem a literatura? Dá para ser feliz sem brincar com as palavras? Se não dá, deixemo-nos contagiar pelos movimentos que emergem da vida e das nossas palavras.
Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos (pies.neialberto@gmail.com)

De uma presença ausente - Reflexões

De uma presença ausente

“Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma... Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa... por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas; pode ser a última vez que as vejamos”. (Mensagem Depois de algum tempo, autor desconhecido)

            A lacuna da morte de alguém muito próximo da gente como nosso pai, nossa mãe, nosso irmão ou irmã, nosso amigo ou amiga, nosso avô ou avó sempre nos remete a um dos mais difíceis aprendizados da vida humana: conviver com a presença ausente. O desafio que se coloca a todos é reconhecer sentido para a nossa existência, pois a morte de alguém sempre deve nos remeter para a pergunta sobre o tipo de vida e de relações que construímos de forma individual e coletiva.
            Cada um de nós carrega de sentido a sua existência através das relações interpessoais pelas quais nos “fazemos gente”. Por mais que tentemos, ninguém consegue sobreviver e, quiçá, ser feliz sozinho. Esta característica da interdependência é também, de certeza, um dos maiores desafios de nossa própria humanização, pois conceber-se integrado e conectado com os outros exige que saibamos lidar com a superação dos próprios egoísmos.
            A vida comunitária, herança de nossas primeiras e mais primitivas comunidades, re-significa o sentido da morte de uma pessoa. As comunidades religiosas são, sobretudo, o lugar onde fazemos a memória de nossos mortos, buscando apreender de seus ensinamentos, exemplos e virtudes.
  Na comunidade somos reconhecidos por nossos feitos e desfeitos. São muito mais felizes aqueles que podem desfrutar durante a vida, e no momento de sua morte, dos valores comunitários. Quem tem uma comunidade e leva uma vida comunitária vive mais feliz e poderá morrer mais feliz ainda. A comunidade é também o lugar onde damos vazão aos nossos medos, fantasmas e incompreensões, refazendo-nos permanentemente. Por isso mesmo, cada um deve ser reconhecido e tratado com dignidade, pois é a referência de si mesmo (alteridade). A comunidade, por sua vez, é o espaço em que lapidamos o nosso ser pessoal e social, onde ousamos viver a nossa subjetividade, buscando o reconhecimento.
Um dos grandes ensinamentos de meu querido e saudoso pai foi ter-me ensinado que para sobreviver precisamos de muitas poucas coisas, mas que precisamos nos apegar ao que é fundamental: a família e a comunidade. Ensinou-me ainda, que é preciso amar as crianças e os mais velhos porque estes são os sujeitos da comunidade que mais precisam de nossa ajuda e proteção. Meu pai também comprovou, a si mesmo e aos outros, que sempre é bom e necessário reconciliar-se com os outros para reconciliar-se consigo mesmo. Ensinou-me tantas coisas, demonstrando especial atenção aos valores do trabalho, do amor e a da fé. Como a maior parte dos pais, soube valorizar as conquistas de seus filhos como se fossem também as suas. Soube apontar, na medida do seu universo, os caminhos que seus filhos poderiam trilhar. Soube constituir-se sujeito, a partir da comunidade.
Conviver com a presença ausente é deparar-se com os interstícios entre as palavras, as ações, os gestos e os exemplos de nossos entes queridos. As lembranças se encarregam de re-colocar, permanentemente, que cada pessoa tem algo a nos ensinar porque é única, sagrada, genuína. A presença ausente é, também, prova de que a vida se faz na experiência compartilhada, nas memórias e nas histórias de todos os que na comunidade se fazem protagonistas.
Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos.

15 de ago de 2011

Jornada de Literatura - Passo Fundo, 2011 - O Menino que perguntava

O Menino que perguntava

            Importante considerar que o livro, pelo seu titulo, aponta para uma perspectiva diferente, ou seja, todos ou uma grande maioria prefere ficar ou simplesmente querer as respostas, apontar para a lógica do questionamento é altamente desafiador. Com certeza as perguntas são mais desafiadoras, pois exige e apontam para um aspecto importante para a Educação e sociedade atual, que é a capacidade de questionar, refletir, pensar, postura esta fundamental.
O livro é muito interessante, primeiramente pelo fato de apresentar um enredo interessante, relacionado com a vida das pessoas, além de estar sempre focado e apontando para a importância das perguntas.
Interessante se avaliar a importância do livro, pelo fato de ser um livro interessantíssimo, por sua proposta altamente educativa, ou seja, apontar para a perspectiva da possibilidade de que mais importante que as respostas, são as perguntas. No processo educativo, isto é altamente revolucionário, pois isto capacita efetivamente para o processo não só educacional, mas também transformador da sociedade.
Imaginemos não só um menino esperto e muito perguntador, mas muitos, todos. Jovens, adultos, idosos todos, perguntadores, questionadores, na aula, fora dela, pronto para questionar, soltar as perguntas afora, querendo saber a origem, as causas, as conseqüências das ações, pensamentos, idéias?
Perguntarei: Seria ou não este mundo diferente? Existiria ainda a indiferença, as injustiças?
A estória contada em "O Menino que Perguntava", do jornalista Ignácio de Loyola Brandão é uma bonita, desafiadora, muito atual, que poderia e deveria ser lida, conhecida, refletida em todas as famílias, nas escolas. Iria além, ou seja, poderia ser adotada como uma postura pedagógica, em todos os estabelecimentos educacionais, especialmente nas series iniciais.
Tornar-se cada vez mais curioso, perguntador, descobrir todas as respostas do mundo, a partir das perguntas. Reforçaríamos a importância da concepção, fundamental da filosofia, onde as perguntas são mais importantes que as respostas, não desmerecendo a sua importância. De tanto, mas tanto perguntar, o menino foi aprendendo, que pergunta tem hora, e que não é qualquer pergunta que deve ser feita.
Educar a partir das perguntas, dos questionamentos, esta deveria ser a função primeira da escola. Fazendo isso não apenas capacitaríamos para descobrir as respostas das 107 perguntas que estão no final do livro, mas educaríamos sim para a capacitação de verdadeiros cidadãos, críticos, conscientes, transformadores da realidade.
Vale a pena ler este livro.

Onesio Primo Longhi
15 de Agosto de 2011.

5 de ago de 2011

EDUCACÃO, SÓ COM QUALIDADE

Educação, só com qualidade.

“Viemos ao mundo para dar nome às coisas: dessa forma nos tornamos senhores delas ou servos de quem as batizar antes de nós”. (Lya Luft, escritora)

Qualidade é um substantivo inerente ao ser humano e a seus afazeres. O ofício de educar, dentre outros, pressupõe qualidade. A qualidade é gerada na satisfação pela conquista de aprendizagens, protagonizadas por educadores e educandos. O prazer nas relações de ensino-aprendizagem está na construção do conhecimento como algo útil, agradável e capaz de desencadear alegria e realização. O educador é um dos maiores interessados em qualidade na educação; a escola carrega potenciais de sua satisfação, uma vez que o fracasso dos educandos também representa o seu próprio fracasso.
Quem ganha com a desqualificação da educação pública? Quem ganha quando os professores e professoras não são tratados com a dignidade que merecem? Quem goza de alguma vantagem quando os alunos de nossas escolas saem das mesmas sem condições de ler e interpretar o mundo, para melhor inserir-se nele? Ninguém, muito menos os professores ou os alunos, ou a sociedade.
É um avanço que a sociedade queira discutir qualidade na educação. É, no entanto, injusto e leviano supor que o insucesso da escola pública recaia unicamente sobre os professores e professoras, usando-se para tanto a meritocracia como uma forma de punição e seleção dos professores. Os professores e a comunidade escolar sabem do seu maior mérito: a resistência e a sobrevivência da escola pública, durante as últimas décadas.
Existem razões suficientes para querermos uma escola pública e de qualidade. No entanto, questiona-se a legitimidade das avaliações de seu desempenho sem uma ampla discussão e participação dos maiores interessados e sem uma ampla discussão na sociedade sobre o papel da educação no atual contexto histórico.
Rubem Alves, quando discute “Qualidade em educação”, lembra que “a educação, na medida em que lida com a vida das pessoas e a vida do país, deve ser a área mais rigorosamente testada e é preciso que seja excelente. Entretanto, é aquela em que os testes são mais difíceis e as avaliações, vestibulares e provões quase nada significam: nada garante que a qualidade, medida por critérios acadêmicos numéricos consiga passar os testes que a vida impõe”.
Alves afirma que as avaliações escolares sempre são anunciadas com a intenção de “consertar a máquina” (a estrutura dos sistemas de ensino). E logo responde: “eu, ao contrário, acho que não há nada de errado com a máquina. Não há o que consertar. Acontece que os alunos, mais precisamente os corpos dos alunos – tem também seus mecanismos de “controle de qualidade”. Se eles não aprendem é porque os seus corpos reprovam a máquina. Seus corpos vomitam o que a máquina lhes enfia goela abaixo. O resultado do “examão” seria a prova disso”. E pondera ainda que nosso corpo só aprende dois tipos de conteúdos: os que dão prazer e os que levam ao objeto de prazer (aqueles com razões para serem aprendidos). “A máquina funciona como deve. O problema é que a comida que ela serve é imprópria para a inteligência”.
Faz bom tempo que os educadores/as reclamam qualidade. Faz tempo que apontam impróprio o tratamento que os governos lhes dispensam. Todo este contexto pressiona seu ambiente de trabalho, fere suas inteligências e limita imensamente o seu prazer de ensinar. Há que se considerar ainda que todo tratamento impositivo se torna indigesto e que os muitos jeitos de fazer educação só merecem reconhecimento se ajudarem as pessoas a viver melhor no mundo, exercendo sua cidadania e sendo mais felizes. O resto, pouco ou nada tem a ver com qualidade.



Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos