2 de jul de 2015

Ci-da-de mágica!?

Uma cidade linda! Tudo brilha, tudo é tomado de cores, cheiros e sabores. A cidade tem luz e alegria para todos, bebês que são tesouros, farmácias em todas as casas, educação que transforma o mundo. Obras e inovações não param de ser anunciadas!
Não é maravilhosa? Ninguém triste e nem doente, ninguém reclama saúde, educação, segurança e moradia. Todos os problemas de ontem parecem estar resolvidos hoje ou, no máximo, amanhã de manhã.
 Precisaram passar 150 anos para esta cidade despertar! Cidade mágica possui um líder que brilha e fala maravilhas. Possui boa oratória e a mídia gosta dele.
Cidade mágica constrói shoppings e abre muitas farmácias. Abre cursos de medicina, mas fecha livrarias, bares, cafés e cinemas. Não tem calçadão e nem um grande parque para sua gente caminhar, andar de bicicleta, fazer piquenique, admirar a natureza e o ruído e barulho dos pássaros.
Ciclistas e pedestres descobriram a maravilha de caminhar e andar, mas o espaço para estes fins precisa ser compartilhado e é muito pequeno. Nesta mágica cidade realizam-se eventos culturais, de literatura, de folclore e grandes schows musicais. Quem pode pagar apenas assiste, e gosta!
A cidade é apenas mágica, mas alguns a pretendem cosmopolita. Com muita insistência, escondem o jeito provinciano de ser. Do amanhecer ao anoitecer, a cidade é sonorizada com o cantar seresteiro de um importante pássaro brasileiro. “Cidade inteira fica muda ao seu cantar, tudo se cala para ouvir sua canção”.
Magias são criadas e impulsionadas pelo glamour do marketing e das propagandas: sempre lindas, coloridas, sofisticadas, mágicas. Estas vendem mundos que contrastam com a dureza e as lutas cotidianas do povo que escolheu esta cidade para viver e morar. A magia rege um espetáculo de uma vida irreal. Tudo o que é anunciado fica como se já estivesse feito, há muito tempo. Os verdadeiros artistas do espetáculo cotidiano de vida e de trabalho tornaram-se sujeitos passivos e coadjuvantes.
Vamos embora, minha gente, que a cidade precisa de espetáculos! Neste contexto singular de uma cidade mágica, os problemas da vida real são manipulados, maquiados e esquecidos. É duro demais acordar, todas as manhãs, sem poções mágicas! Viva os espetáculos! A vida, que espere um pouco mais!
Uma dúvida paira no ar: até quando os habitantes desta ci-da-de suportarão as ilusões, os espetáculos e as magias que não consideram a vida como ela é?

*Nota de advertênciaesta cidade mágica existe e afirma-se cada vez mais como indutora do desenvolvimento da grande região do Planalto Médio do RS. É também orgulho para todas as pessoas que moram aqui.
Nei Alberto Pies, professor, escritor e ativista de direitos humanos.