29 de dez de 2012

Video - Tocando em frente - Construindo VIDA

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ENSINA A TEU FILHO - Frei Betto



ENSINA A TEU FILHO - Frei Betto

Ensina a teu filho que o Brasil tem jeito e que ele deve crescer feliz por ser brasileiro. Há neste país juízes justos, ainda que esta verdade soe como cacófato. Juízes que, como meu pai, nunca empregaram familiares, embora tivessem filhos advogados, jamais fizeram da função um meio de angariar mordomias e, isentos, deram ganho de causa também a pobres, contrariando patrões gananciosos ou empresas que se viram obrigadas a aprender que, para certos homens, a honra é inegociável. 
Ensina a teu filho que neste país há políticos íntegros, administradores competentes, autoridades honradas, que não se deixam corromper, não varrem as mazelas para debaixo do tapete, não temem desagradar amigos e desapontar poderosos, ousam pensar com a própria cabeça e preservar mais a honra que a vida.
Ensina a teu filho que não ter talento esportivo ou rosto e corpo de modelo, e sentir-se feio diante dos padrões vigentes de beleza, não é motivo para ele perder a auto-estima. A felicidade não se compra nem é um troféu que se ganha vencendo a concorrência. Tece-se de valores e virtudes, e desenha, em nossa existência, um sentido pelo qual vale a pena viver e morrer.

Ensina a teu filho que o Brasil possui dimensões continentais e as mais fertéis terras do planeta. Não se justifica, pois, tanta terra sem gente e tanta gente sem terra. Assim como a libertação dos escravos tardou mas chegou, a reforma agrária haverá de se implantar. Tomara que regada com muito pouco sangue.
Saiba o teu filho que os sem-terra que ocupam áreas ociosas, griladas ou devolutas são, hoje, chamados de "bandidos", como outrora a pecha caiu sobre Gandhi sentado nos trilhos das ferrovias inglesas e Luther King ocupando escolas vetadas aos negros.
Ensina a teu filho que pioneiros e profetas, de Jesus a Tiradentes, de Francisco de Assis a Nelson Mandela, são invariavelmente tratados, pela elite de seu tempo, como subversivos, malfeitores, visionários.

Ensina a teu filho que o Brasil é uma nação trabalhadora e criativa. Milhões de brasileiros levantam cedo todos os dias, comem aquém de suas necessidades e consomem a maior parcela de suas vidas no trabalho, em troca de um salário que não lhes assegura sequer o acesso à casa própria. No entanto, essa gente é incapaz de furtar um lápis do escritório, um tijolo da obra, uma ferramenta da fábrica. Sente-se honrada por não descer ao ralo que nivela bandidos de colarinho branco com os pés-de-chinelo. É gente feita daquela matéria-prima dos lixeiros de Vitória, que entregaram à polícia sacolas recheadas de dinheiro que assaltantes de banco haviam escondido numa caçamba.
Ensina a teu filho evitar a via preferencial dessa sociedade neoliberal que tenta nos incutir que ser consumidor é mais importante que ser cidadão, incensa quem esbanja fortuna e realça mais a estética que a ética. Convence-o de que a felicidade não resulta da soma de prazeres e a via espiritual é um tesouro guardado no fundo do coração – quem consegue abri-lo desfruta de alegrias inefáveis.
Saiba o teu filho que o Brasil é a terra de índios que não se curvaram ao jugo português e de Zumbi, de Angelim e Frei Caneca, de madre Joana Angélica e Anita Garibaldi, dom Helder Camara e Chico Mendes.
Ensina a teu filho que ele não precisa concordar com a desordem estabelecida e que será feliz ao unir-se àqueles que lutam por transformações sociais que tornem este país livre e justo. Então, ele transmitirá a teu neto o legado de tua sabedoria.
Ensina a teu filho a votar com consciência e jamais ter nojo de política, pois quem age assim é governado por quem não tem, e se a maioria o tiver será o fim da democracia. Que o teu voto e o dele sejam em prol da justiça social e dos direitos dos brasileiros imerecidamente tão pobres e excluídos, por razões políticas, dos dons da vida.
Ensina a teu filho que a uma pessoa bastam o pão, o vinho e um grande amor. Cultiva nele os desejos do espírito, a reverência pelos mais velhos, o cuidado da natureza, a proteção dos mais frágeis. .
Saiba o teu filho escutar o silêncio, reverenciar as expressões de vida e deixar-se amar por Deus que o habita.
Frei Betto é escritor, autor de "Alfabetto – autobiografia escolar" (Ática), entre outros livros.



http://www.freibetto.org/index.php/artigos/46-ensina-a-teu-filho-frei-betto

20 de dez de 2012

Qual a linha demarcatória é entre neoliberalismo e antineoliberalismo ?


“A luta essencial é entre mercado e direitos. A gente quer tirar do
mercado e colocar na esfera dos direitos e eles querem mercantilizar.
A linha demarcatória é entre neoliberalismo e antineoliberalismo”,
define o sociólogo Emir Sader, quando questionado sobre o que é ser de
esquerda nos dias de hoje.

Sader esteve em Curitiba para o lançamento de seu livro As Armas da
Crítica – Antologia do Pensamento de Esquerda (Editora Boitempo, ao
lado de Ivana Jinkings). Em coletiva cedida à imprensa sindical e de
esquerda, organizada pelo sindicato de professores estaduais
(APP-Sindicato), o que era para ser uma conversa pontual sobre um
lançamento tornou-se uma reflexão sobre a crise econômica e a disputa
em torno da manutenção do modelo neoliberal, por um lado, e as
tentativas populares de romper essa hegemonia; o que passa, de acordo
com Sader, pela questão de os movimentos sociais retornarem à disputa
na esfera política.

Brasil de Fato – Qual caracterização o senhor faz do atual momento da
crise mundial?

Emir Sader – É inerente ao capitalismo a crise. Como Marx reconheceu
no próprio Manifesto Comunista, o capitalismo tem uma extraordinária
capacidade de transformação da realidade, mas não distribui renda para
consumir o que produz. Então, periodicamente o Capital tem crises, que
alguns chamam de superprodução e outros subconsumo. A produção cresce
e falta consumo, então o paradoxo é que sobram mercadorias nas
estantes. Ao invés de distribuir renda para consumir, a crise manda
embora trabalhadores e aumenta-se mais ainda a crise. Só que o
capitalismo achava que o mercado recompõe isso. Na crise, as empresas
que eles consideram fragilizadas, digamos, quebram e o capitalismo
retoma seu ciclo de crescimento, num patamar mais baixo, mas mais
saudável. Desta vez, não está acontecendo isso. Porque na fase
neoliberal do capitalismo, o que é hegemônico é a especulação e não a
produção.

Como se dá este embate no campo da política? A impressão é que, na
opinião pública, se polariza entre alternativas neoliberais e o
resgate do keynesianismo.

O grande diagnóstico dos dirigentes capitalistas quando terminou o
ciclo expansivo econômico anterior foi o de que a economia deixou de
crescer porque havia muita regulamentação e ‘muito Estado’. Então, é
preciso liberar a livre circulação do Capital, tirar as travas para
que circule. A grande norma passa a ser a desregulamentação, o
livre-comércio. Ao fazer isso, não vem um ciclo produtivo e expansivo.
Porque o Capital não é feito para produzir, mas para acumular, se ele
consegue isso na acumulação é para lá que ele vai. Então, em escala
mundial, há uma brutal transferência de capitais do setor produtivo
para o especulativo. Hoje, mais de 90% das trocas econômicas no mundo
não são compra e venda de bens, são basicamente compra e venda de
papéis.

Ele [sistema capitalista] está numa fase particular, diferenciada. O
neoliberalismo não teve um ciclo produtivo porque na verdade canalizou
recursos para a especulação. A crise explode diretamente no sistema
financeiro, bancário. E a hegemonia de ideias é neoliberal. Estão
dando soluções neoliberais para a crise na Europa, estão jogando
álcool no fogo. Tanto que a Dilma jogou isso na cara da Angela Merkel:
cortando [direitos trabalhistas, previdenciários] só se leva a mais
recessão e desemprego. Essa é a interpretação dominante.

A outra [solução] é a da reativação keneysiana, um pouco o que a
América do Sul está fazendo. Algo óbvio. Na crise se investe mais em
políticas sociais, distribui a renda para aumentar a demanda. Como
fizemos em 2008. O que tem uma solução, do ponto de vista imediato,
anticíclica, funciona relativamente. Tanto que a América do Sul é um
polo de desenvolvimento ainda. Falta-nos a demanda deles, mas em
outras circunstâncias a crise seria avassaladora. Já existe uma
multipolaridade econômica mundial, pela integração regional, pela
relação com a China, e também pelo mercado interno de consumo. A visão
crítica disso é que é uma solução defensiva em relação à crise.

Se você não muda estruturas econômicas de poder, isso tem limites.
Nosso continente foi vítima das transformações mundiais negativas,
como a crise da dívida, ditaduras militares, governos neoliberais, e
que desarticularam a estrutura industrial, abriram aceleradamente a
economia, enfraqueceram o Estado. Então temos coisas paradoxais: os
produtos primários agrícolas e energéticos são prioridade na
exportação do comércio exterior, então exportamos soja e fazemos
política social. Melhor assim, mas de qualquer maneira é uma soja
ligada ao agronegócio. Então, temos limitações estruturais, porque a
estrutura mundial ainda é hegemonizada pelo neoliberalismo. Só tem
saída com a integração regional.

Houve o crescimento de renda nos governos Lula e Dilma, mas isso não
parece interferir na consciência de classe. O senhor poderia comentar
esse processo?

Essa é a maior disputa no mundo hoje. Os EUA são decadentes como
potência militar, política e econômica, mas a maior força deles é a
força ideológica. O modo de vida estadunidense é a mercadoria mais
forte que eles têm, que penetra na China, penetra na periferia dos
pobres, são valores determinantes, que ninguém compete com eles. No
Brasil, não se está gerando uma nova forma de sociabilidade,
correspondente à democratização econômica e social. Isso não está
sendo acompanhado de valores. Hoje o risco não é tanto o consumismo,
mas quem é que influencia os processos mesmo eleitorais? É a mídia e
são as igrejas evangélicas. O movimento popular está muito fragilizado
no seu processo de mobilização e também de difusão de ideias. São
Paulo foi pega desprevenida neste sentido. Vivemos três ditaduras que
são os obstáculos maiores: a ditadura do dinheiro, que é o capital
financeiro, ditadura da terra, que é o agronegócio, e a ditadura da
palavra, que é o monopólio da mídia, o que dificulta essa criação de
consciência nova.

E qual o papel dos sindicatos, cuja atuação parece muito restrita aos
seus interesses econômicos?

Difícil porque, nas grandes transformações do mundo, os trabalhadores
foram vítimas especiais, não só na esfera produtiva, nas políticas de
flexibilização laboral, que enfraquece a base dos sindicatos, mas o
próprio mundo do trabalho ficou invisibilizado – parece que ninguém
mais trabalha. A jornada hoje não é de oito, mas de doze horas. Esse é
o cotidiano das pessoas, que não está em lugar nenhum. Não tivemos
muitas gerações de trabalhadores a ponto de gerar uma cultura operária
no país, nem sequer na base, tampouco na literatura. São poucas
coisas. No mundo rural sim. Então, nas novelas da Globo, que criam o
imaginário nacional, o trabalhador não existe. Então, o que ocupa as
pessoas o tempo todo, que é o trabalho alienado, não aparece, não está
em lugar nenhum. Não está em editoria de jornal.

Quais são os espaços para essa disputa ideológica?

Mesmo sem financiamento público de campanha, o movimento popular
deveria eleger sua bancada no Congresso. Sei que não é fácil. Olhamos
o Congresso, há retrocessos ou se bloqueia avanços. O agronegócio tem
uma bancada fenomenal, e apenas dois representantes de trabalhadores
rurais. Quantos representantes os educadores têm no Congresso? Se tem,
nem sequer atuam como bancada. Já de donos de escolas privadas está
cheio.

Hoje, uma estratégia insurrecional não é viável. A correlação de
forças mundial mudou, basta ver a situação de impasse na Colômbia, a
América Central se reciclou. Se os zapatistas e o MST militarizassem
sua luta seriam massacrados. Então, [a luta] é pela democratização do
Estado. É preciso penetrar no Estado, não de qualquer modo. O
parlamento é um lugar não só para ter líderes políticos e sindicais.
Reclamamos, com razão, que o governo nem colocou a lei de
regulamentação da mídia em votação, mas você acha que neste Congresso,
formado por donos de meios de comunicação, isso vai passar?

Como o senhor define o campo da esquerda hoje?

O capitalismo assumiu a roupa neoliberal. Veio de um modelo
keynesiano, de bem-estar social, para um modelo liberal de mercado.
Essa é a linha divisória. Ser de esquerda hoje, moderadamente ou
radicalmente, é ser antineoliberal. A luta essencial é entre mercado e
direitos. A gente quer tirar do mercado e colocar na esfera do direito
e eles querem mercantilizar. A linha demarcatória é neoliberalismo e
antineoliberalismo. Há movimentos que são gritos desesperados que não
encontram espaço na esfera política. Agora, diferente é o movimento
dos estudantes no Chile, que tem organicidade com os sindicatos, fazem
greve geral e levaram à quebra de legitimidade do governo Piñera.

Seria possível estratégias combinadas entre movimentos, partidos e governos?

A América Latina teve governos neoliberais na sua versão mais radical.
Na década de 1990 tivemos um período de resistência contra essa
hegemonia que era tão forte. Os movimentos sociais foram determinantes
nessa época. Depois, surgiram governos alternativos. Era a hora de
passar da resistência à disputa de hegemonia. Na época, a hegemonia
dominante no Fórum Social Mundial era a das ONGs, tanto assim que se
teorizou e os movimentos sociais entraram nessa sobre a ‘autonomia dos
movimentos sociais’. Autonomia em relação a quê? A gente falava antes
de maneira ampla em autonomia em relação à burguesia e etc... Agora,
autonomia em relação à política? A ONG sim, nasceu como sociedade
civil conquistada. Os movimentos sociais entrarem nessa foi uma
loucura. O movimento piquetero acabou na Argentina. Os zapatistas
buscaram emancipar Chiapas, independente da luta política no México,
são contra até o PRD e as soluções moderadas, em nome da ‘autonomia
dos movimentos sociais’. Isso é algo pré-gramsciano. É não disputar a
hegemonia. Então, foi fundamental os movimentos bolivianos se
reunirem. Derrubaram cinco governos na Bolívia, criaram um partido
para disputar a presidência, dando um salto de qualidade. Quem está,
mal ou bem, construindo um outro mundo possível são os governos
latino-americanos. O FSM devia ser o lugar onde os governos com os
movimentos sociais sejam os pontos centrais dessa alternativa.
Fonte: Brasil de Fato

16 de dez de 2012

Somos se temos palco...


Somos se temos palco 

 “O mundo inteiro é um palco, e todos os homens e mulheres são apenas
atores” (William Shakespeare, 1564-1616)

A vida em sociedade é o nosso grande palco. Neste palco, somos permanentemente observados por aquilo que somos, aquilo que fazemos e aquilo que representamos diante dos demais pares. Em grande medida, o conjunto destas observações nos é apresentado cotidianamente pelos outros e, assim, vamos internalizando, assimilando e construindo o nosso modo de ser, pensar e agir. Há que se observar, de nossa parte, certo grau de coerência para que possamos inspirar confiança e constância nas relações que estabelecemos com os demais.
Nem sempre sabemos precisar o quanto o olhar e a observação dos outros pesa sobre a vida da gente. É fato, no entanto, que maior parte de nossas condutas e reações regem-se a partir destes, em nome do reconhecimento social. A qualidade de nossa vida social está intrinsecamente ligada com a nossa capacidade de conviver, de associar-se, de mover-se, de construir acordos e projetos coletivos, de agregar.
A nossa construção de seres sociais é feita a partir de nossas experiências individuais e coletivas. Os aprendizados são sempre pessoais, mas a tendência é a sociedade padronizar nossos modos de ser, de pensar e de agir. Marta Medeiros, em suas recentes crônicas, traz presente a preocupação de como resolver o conjunto de dualidades que reside em cada um de nós, uma vez que a sociedade tende a nos “encaixotar” e “selar uma etiqueta” para nos definir. Assim escreve: “É  obrigatório confirmar o que o seu rótulo induz a pensarem sobre você”. Como podemos observar, nem sempre temos as melhores oportunidades para nos alçarmos à condição de sujeitos: livres, autônomos, autênticos.
Outro fator determinante da qualidade de nossa vida social é procurar sempre agir sob “justa medida”. A “justa medida” estabelece-se a partir dos nossos méritos e métodos. Nem sempre basta ter bons méritos para agir, se não tivermos um método adequado para nos fazer compreender. Da mesma forma, pouco vale um método se não temos boas razões para nos comunicar/expressar. Sempre há que se equacionar os métodos com os nossos méritos (e vice-versa).
Somos permanentemente tentados a enquadrar e rotular as ações e posturas dos outros sem antes pensarmos na complexidade da vida humana. A experiência de vida pessoal, embora fundante, é insuficiente para explicar o conjunto de ações, reações e comportamento dos outros. A vida de cada ser humana carrega nuances próprias, únicas e  insubstituíveis. Daí reside nossa dificuldade de educar os outros, de opinar sobre suas atitudes, de construir consciência, de dar conselhos.
O fato de sermos únicos e genuínos é maravilhoso, mas também assustador. Por isso, nada melhor do que investir nas inúmeras oportunidades para conhecer os outros, relacionando-se com eles. O nosso palco é o mesmo, mas jamais serão iguais as nossas buscas para nos fazermos gente. Todos, felizmente, temos o desafio de nos tornarmos seres sociais, mas não podemos abdicar de nossas peculiaridades e experiências únicas, interiores e pessoais.
Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos

Direitos humanos, tudo a ver com nossa vida.


Direitos humanos, tudo a ver com nossa vida. 
"Como seres humanos a nossa grandeza reside não tanto em ser capazes de refazer o mundo… mas em sermos capazes de nos refazermos a nós mesmos”. (Mahatma Gandhi)
O conceito de direitos humanos faz-se historicamente, assumindo diferentes abordagens e perspectivas, gerando diferentes posturas e compreensões. Nasce, contudo, a partir da consciência e da necessidade de preservar a vida e tudo o que nela está imbricado. Ao longo dos tempos, o conceito foi sendo construído culturalmente como se os portadores destes direitos fossem sempre os outros, aqueles que estão numa situação de extrema indignidade, nunca a gente (eu, você e nós). Há, então, a necessidade de compreender melhor o conceito de direitos humanos para que dele nos sintamos parte.

Sob o ponto de vista da compreensão histórica, os direitos humanos constituem-se a partir do reconhecimento, muito antes de constituírem faculdade de um ou de outrem . A defesa da vida, que também defesa da dignidade humana, engloba o que a humanidade, através de muita luta e conquista, reconheceu como direitos humanos. O que vem a ser dignidade humana? É difícil definir, mas entendemos quando ela falta a alguém (como aquilo que define a própria noção de humanidade, enquanto condições mínimas, básicas e elementares para sermos gente). O nosso cotidiano está repleto de infinitas realidades de indignidade, basta ativar a nossa sensibilidade e o nosso olhar.

A mesma cultura que nos fez acreditar que direitos humanos não são os nossos direitos de ser gente também alimentou a falsa ideia de que, ao afirmamos os direitos das pessoas, estaríamos abrindo mão de seus deveres. Sempre nos fora dito que temos mais deveres a serem cumpridos do que direitos a serem gozados, usufruídos. Muitas vezes entenderam-se direitos como privilégios de uma classe social, povo ou nação, em detrimento dos demais. Ocorre que, a cada direito que conquistamos, naturalmente, sem dizê-lo, está imbricado o nosso dever. Direitos e deveres chegam juntos, não existem separados como muitos supõem.

Mas como criar identidade com direitos humanos? É preciso considerar a si mesmo e aos outros como sujeitos de direitos, de liberdade, de dignidade, ao mesmo tempo diferentes e iguais uns em relação aos outros. O que todos temos em comum é o fato de que somos humanos e comungarmos das mesmas necessidades. Todos como eu e você são seres humanos, portadores de algo sagrado e inegociável: a vida da gente. Neste sentido, nossas diferenças ou semelhanças não podem ser critérios para auferir dignidade para um ou para outrem.

Desconhecemos outra maneira de mudar culturalmente conceitos ou ideias senão pela educação. A educação em direitos humanos significa educar para a democracia, oportunizando que os cidadãos tenham noção de seus direitos e deveres e que lutem por eles. É papel da escola, e da educação, contribuir para a compreensão do mundo, para uma melhor inserção nele. A cultura de direitos humanos promove condições em que ocorram a tolerância, o diálogo, a cidadania, a diversidade. Deve também permitir a liberdade de organização e luta aos grupos organizados em torno de seus direitos. Deve exigir um Estado protetor e promotor de direitos humanos, e não violador da vivência da cidadania e das liberdades. A consciência, quando transformada em luta (diária, cotidiana, permanente), é quem garantirá a exigibilidade de nossos direitos.

Educação em direitos humanos não é somente um conteúdo a ser ensinado, mas pressupõe, antes de tudo, a vivência de valores e atitudes que cultivem a preservação da vida, das singularidades e das diferenças. Para mudarmos atitudes e conceitos precisamos ser motivados, sensibilizados e estimulados a compreender o ser humano em suas diferentes situações e realidades.

A dignidade, da qual somos portadores, abre horizontes para perceber e acolher a necessidade do outro. Eu, você e nós conquistaremos felicidade quando pudermos compartilhar vida plena, na humanidade que reside em cada um e cada uma de nós, sendo iguais no fato de possuirmos diferenças e termos mesmas necessidades.
 
Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos