21 de mai de 2015

Ser humano não é descartável

Ser humano não é descartável

“A essência dos direitos humanos é o direito a ter direitos”. (Hannah
Arendt, filósofa)

        Militantes e ativistas de direitos humanos sempre se somaram a
deputados e deputadas que colocarem seus mandatos parlamentares à
disposição das lutas pelos direitos humanos. Nunca foram muitos, mas
foram importantes para tornar públicos os debates e as lutas de quem,
anonimamente ou em grupos formados por ONGs, levantava as bandeiras em
defesa da dignidade humana. Nos últimos anos, além do arrefecimento e
dificuldade das lutas por dignidade, parte da esquerda brasileira
deixou de ver direitos humanos como uma possibilidade de disputa
política e social. Lutar por direitos humanos parece ser uma atitude
indigesta, difícil e sem dividendos políticos. Ao mesmo tempo, por
força cidadã e articulada de milhares de brasileiros, há avanços
importantes que afirmam a cidadania, a liberdade, a dignidade humana e
os direitos humanos.
A novidade é que esta pauta política despertou as forças mais
reacionárias e retrógradas deste país. Estas “vociferam” contra as
conquistas das minorias, dos pobres e oprimidos, dos gays,
homossexuais e lésbicas, das crianças e adolescentes, contra todas as
conquistas sociais e de inclusão. Os pobres e minorias deste país são
duplamente discriminados: pela situação em que se encontram e por
manifestarem desejo, força e organização para lutar. Este contexto
está gerando novos fundamentalismos que tentam afrontar e derrubar
conquistas e avanços democráticos, com ameaças ao Estado de Direito.
Nunca estes avanços e conquistas estiveram em tamanha vulnerabilidade
e questionamento e nunca o ódio foi o combustível tão largamente
utilizado para desconstruir a cidadania.
        Conheci as lutas de direitos humanos no tempo em que Marcos Rolim,
deputado estadual, promovia no Rio Grande do Sul Conferência Estadual
de Direitos Humanos com o tema: “Nenhum ser humano é descartável”.
Desde àquela época até hoje, 2015, muita coisa mudou. Além dos
direitos individuais, direitos econômicos e sociais foram
concretizados. No entanto, a defesa das causas sociais, a partir de
mudanças na estrutura, organização e concepção de sociedade, sempre
foram duramente combatidas pelos defensores do “status quo”.  Hoje,
enquanto o líder papa Francisco faz movimentos mundiais em favor da
paz, da tolerância e em defesa dos direitos humanos e sociais,
Bolsonaros e outros tantos criam no Brasil ambiente de disseminação de
ódios, intolerâncias e criminalização.
        A criminalização é a face mais perversa do Estado e da sociedade
porque não permite que a cidadania seja exercida na perspectiva dos
“sujeitos de direitos”. Quem luta por seus direitos e pelos direitos
dos outros é ligeiramente taxado, acusado e condenado sumariamente. Os
estigmas e preconceitos sociais atribuídos àqueles que lutam anulam a
possibilidade de uma cidadania plena e ativa.
        A democracia, como possibilidade de reclamar direitos, ainda está
longe de ser uma realidade brasileira. Maria do Rosário, deputada
federal do RS, foi eleita “musa dos desafetos de direitos humanos
fundamentais do povo brasileiro”. Rosário, Rolim e outros tantos
corajosos militantes de direitos humanos já emprestaram sua vida, suas
histórias, suas vozes e suas lutas pelos mais fracos, oprimidos e
explorados em nossa sociedade, em defesa da dignidade humana de todos,
indistintamente. Estes lutadores sociais sabem que direitos humanos
trazem, na essência, o direito a ter direitos. Por isso mesmo,
fortalecem-se nas lutas, nas conquistas e nas realizações de cada e de
todo ser humano que tem a possibilidade de desabrochar, de viver bem e
de ser feliz!
        Vida longa a todos os que ousam lutar! Lutar por direitos não é crime!

Menino sonhador

Menino sonhador

Um menino sonhador morou no interior até seus 20 anos, dedicando parte de seu tempo-criança para conversar com a lua. Inspirava-se nos seus raios e buscava luzes para seus caminhos, especialmente em noites de lua cheia. Cantarolava a esperança, para aliviar ansiedades. Dividia seu tempo entre o trabalho na roça, os estudos escolares e o acalentar de sonhos, no princípio de muitas noites. Sua família pobre e humilde, com muitas dificuldades, soube arquitetar sonhos e desejos para que todos, mais tarde, pudessem superar sua “miséria minifúndia”.
A ansiedade deste menino era descobrir como ser “reconhecido pelos outros”. Sua primeira tentativa foi pela fama: alimentou a ilusão de ser um grande cantor. Imaginava palcos, aplausos e muito reconhecimento. Começou a cantar no coral de sua igreja, mas parou por aí.  Enquanto estudava, viveu a tensão de ser querido e discriminado. Era muito gago, o que lhe rendia muitos preconceitos e discriminação. Mas como ninguém é zero em tudo, aprendeu cedo a compensar este seu limite de comunicação (falada) com leituras e boa escrita. Escrever tornou-se, então, uma grande necessidade, uma forma de se parecer bonito aos outros.
Depois imaginou superar sua “pequenez” ingressando no seminário. Alimentou por alguns anos o desejo de ser padre, bom comunicador e missionário. Decepcionou-se com alguns religiosos porque estes não souberam ajudá-lo e compreendê-lo.
Embora todas estas experiências fossem insuficientes, o jovem moço descobriu que cada uma delas foi fundamental para constituí-lo forte e capaz. Descobriu-se professor, fazendo das práticas pedagógicas lugar de descobertas e afirmações de suas crenças e experiências. Passou a acreditar muito nos potenciais humanos. Passou a acreditar que não nasceu humano, nem professor e nem escritor, mas que sempre está sendo quem é.
Este menino sonhador hoje tem 41 anos. Conta sua história por reconhecer que a história de todo mundo é feita de superação. Acredita que o maior desafio dos seres humanos é sua humanização. Humanizar-se significa tornar-se um ser humano melhor, mais completo e realizado. Por isso afirma que as escolas podem ser espaços de humanização através do conhecimento, da integração e da convivência que acontecem entre os sujeitos da educação: os professores e os alunos.
Este menino sou eu. Tenho minha história, uma família e um primeiro livro. “Conviver, educar e participar” são importantes verbos da existência humana. Verbos ensejam ação humana. Conviver é importante porque não somos felizes sozinhos, embora muitos desejassem. Educar porque nunca estamos prontos e sempre devemos querer aprender. Participar porque fazemos parte do mundo e podemos contribuir para os rumos que queremos para ele. O grande palco: nossa vida. Na vida nos fazemos gente, seres humanos. No encontro com os outros ampliamos as oportunidades de realização. Convivendo nos percebemos frágeis e incompletos, mas também fortes porque somos interdependentes e nos realizamos a partir do amor, do cuidado, da solidariedade e da compaixão.
Além do livro sou colaborador de diversos revistas e jornais do Rio Grande do Sul e do Brasil, assino colunas em sites e tenho minha própria página: neipies.com  Sou professor da rede pública. Além de escrever e publicar, estou disponível para palestras e trocas com grupos de professores ou outros profissionais que trabalhem com cidadania, educação e direitos humanos.

Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos.