A Sabedoria de se inserir na obscura realidade... Construindo coletivamente uma praxis transformadora.
25 de jun. de 2014
14 de jun. de 2014
Educar é cuidar
Educar é cuidar
“Deus é alegria. Uma criança é alegria. Deus e uma criança têm isso em comum: ambos sabem que o universo é uma caixa de brinquedos. Deus vê o mundo com os olhos de uma criança. Está sempre à procura de companheiros para brincar”. (Rubem Alves)
As crianças, nos seus diferentes níveis, idades e particularidades, projetam nos adultos suas referências de vida. Os pais, mães, professores e professoras exercem papel fundamental na afirmação do mundo das crianças. Desta forma, ao afirmar o seu mundo de criança, consolidam também suas percepções do mundo adulto. As crianças também ensinam que a gente não deve esquecer o nosso mundo de criança.
Os professores e professoras já foram crianças e guardam na memória os cuidados e a atenção que lhes foram dispensados quando ainda pequenos. Por isso mesmo, exercem, pela educação, uma relação de confiança e trocas, que deve ser sempre pautada pela coerência, pelo compromisso e pelo exemplo. As crianças até perdoam erros por palavras, mas não erros por atitudes.
Os adultos não perdem seu mundo criança. Com o mesmo carinho e apreço que se referem às crianças, as autoridades da educação deveriam tratar os seus professores e professoras. Não para tratá-los como crianças, mas para fortalecer os esforços e a dedicação que estes exercem, cotidianamente, com todas as crianças.
Uma rede municipal de educação que declara como prioridade o cuidado com as crianças deveria fortalecer uma identidade maior em torno de suas escolas. O uniforme escolar dará uma identificação maior às crianças de uma mesma rede de ensino, o que não significa identidade. Mas o que dará a identidade para a nossa educação? O que poderia fortalecer ainda mais os laços e vínculos entre os pais, os alunos e os professores, em torno de uma rede municipal?
O cuidado com os professores e professoras é um dever das redes de ensino. O cuidado e o respeito às crianças é um compromisso de todos! Uma escola acolhedora, inclusiva e que promova os direitos das crianças é uma responsabilidade que os professores e professoras devem compartilhar com todas as autoridades e com as comunidades.
Educar é cuidar. Aprender é um direito! Cuidar das crianças é assumir compromissos com uma escola que seja “lugar de vivência de direitos” e lugar de significativas aprendizagens. A qualidade de ensino, nesta perspectiva, passa pela responsabilidade da gestão municipal. Esta qualidade deixa a desejar quando ainda há falta de professores e quando as crianças ainda não estão suficientemente acomodadas para brincar, aprender e ser feliz.
Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos.
26 de mai. de 2014
Eleições e Democracia
Democracia dos professores
Os homens constroem paredes demais e pontes de menos (D. Pire)
A escola pública e democrática, bem como as eleições que escolhem os representantes da categoria dos professores e professoras é hoje uma conquista institucionalizada, mas que, na prática, ainda está longe de ser realidade plenamente vivenciada nas escolas e nos sindicatos ou associações de professores. Embora os professores sejam as grandes referências para a cidadania e a luta por direitos para os seus alunos, nem sempre estes tem uma ação politizada eficiente quanto tratam de organizar os seus interesses e oas interesses da educação.
A crítica maior que podemos fazer aos sindicatos de professores é que
estes centraram sua atuação apenas nas reivindicações salariais, deixando de
atuar de forma mais ampla na perspectiva da educação. Os sindicatos se
transformaram em máquinas administrativas anti-governos, descuidando dos
interesses mais imediatos e significativos da vida funcional dos professores e
da educação, de maneira geral.
Não são mais os professores que debatem a educação. O descuido para com
as questões mais amplas e mais complexas da educação gerou um grande vácuo,
agora ocupado por outros especialistas, de outras áreas, como economistas,
sociólogos, filósofos. É inegável que eles tenham algo a dizer sobre a
educação, mas suas reflexões não refletem o cotidiano da complexidade do dia a
dia da educação.
As escolas são grandes laboratórios de exercício de poder. Cotidianamente, através das relações interpessoais, elas administram as suas tensões internas, fortemente influenciadas pelo poder externo (dos governos e da comunidade). E os professores, peças chave desta engrenagem, nem sempre são considerados em suas dimensões humanas e como sujeitos de sujeitos. Professores não são números. Professores são sujeitos, seres humanos, com suas opções pedagógicas e ideológicas. O exercício de seu ofício não lhes permite neutralidade, pois a educação é, por natureza, um ato político. Suas práticas pedagógicas resultam de suas trajetórias pessoais, de seus compromissos com o ser humano e de seus conhecimentos e aperfeiçoamento profissional.
Ao escolher os seus representantes, os professores deveriam escolher dentre aqueles que, além de competências técnicas e de organização sindical e política, sejam capazes de construir “mais pontes e menos paredes”. Que pensem o Sindicato ou a associação de professores como uma estratégia de valorizar seus professores, articulando-se com outras entidades a fins de promover mudanças substantivas na educação. Que utilizem o Sindicato para representar verdadeiramente os professores, não os interesses pessoais ou de partidos políticos.
O exercício do poder democrático é um dever e um legado que os professores podem deixar para a sociedade como um todo; esta é sua contribuição para a consolidação da democracia no Brasil.
Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos.
21 de mai. de 2014
Educar faz diferença.
Educar faz diferença.
Uma das mais importantes descobertas como educador ocorreu faz pouco tempo. As salas de aula de nossas escolas parecem de poucas novidades, riquezas ou descobertas. Felizmente, os seres humanos, por sua capacidade intelectiva e criativa, ainda sabem surpreender-se. Ainda permitem reagir diante do incomum. Ainda podem crescer e avançar.
Numa sala de aula de Ensino Médio Politécnico disse, espontaneamente: “hoje gostaria de dizer da minha felicidade pelo que aconteceu na semana passada nesta escola”. Sem perder tempo, um aluno interrogou: “Professor, como é diferente ouvir um professor falar bem de nossa escola. Eu nunca ouvi nenhum professor dizer de sua felicidade por estar nesta escola”. E eu disse a ele: “Sempre gosto de me sentir bem onde estou. Independente da escola, desejo me sentir bem. Gosto de dar aulas, gosto dos alunos do jeito que são. Gosto da escola do jeito que ela é. E por me sentir tão bem assim, faço o possível para que esta escola seja melhor ainda”. Mais alunos se manifestaram, dizendo que não gostam de sua escola, que sua escola poderia ser melhor. Constatei que havia despertado em toda a sala um sentimento novo e diferente, capaz de gerar novos conhecimentos e novas interpretações da realidade.
Passado o fato, pus-me a pensar na importância do acontecido. Dei-me conta do quanto é importante para os alunos os professores falarem o que pensam. Dizerem quanto gostam deles. Falarem o quanto a escola é importante para a vida de cada um. Dizerem o quanto as pessoas da escola se importam com eles. Dizer-lhes quanto é importante exercer cidadania, reivindicando uma escola pública de qualidade, mais segura, conservada e bem cuidada. Falar-lhes que a escola pode ser um lugar onde se faz amigos, como queria Paulo Freire. Dizer-lhes, vivendo e comprovando que a escola é uma comunidade, que permite que cada um, e todos, coletivamente, possam exercer a convivência e encaminhar as suas escolhas.
Nestes mais de dez anos de profissão, tenho feito muitas descobertas com os meus alunos, mas esta, em especial, torna-se cada vez mais “preciosa”. Se até agora expressar verbalmente meu prazer de dar aulas e gostar dos alunos e da escola era um hábito recorrente, agora se tornará uma “ação intencionada”. Desejo uma escola com qualidade social e humana, que acredita no conhecimento como a melhor forma de emancipar as pessoas. Alguém será contrário?
Não julgo nem condeno colegas professores que tem muitas dificuldades de expressar os seus melhores sentimentos para com os seus alunos. Penso que poderiam observar o que eles trazem como expectativas a partir das quais podemos exercer nossa função de educadores. Acredito que muitas necessidades humanas podem ser atendidas e satisfeitas na nossa escola através da escuta, da consideração, da valorização de cada ser humano, do elogio, do diálogo e da conversa, do desafio para a organização pessoal e coletiva, do despertar dos sonhos e do gosto pela vida.
Nosso desafio maior é humanizar-se, na relação com os outros. Quando a gente permite conhecer e reconhecer os outros, torna-se sujeito de sua história e das histórias dos outros. Quando acredita que educação pode transformar as pessoas e a sociedade, começa a fazer alguma diferença na vida de nossos jovens educandos.
Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos.
16 de mai. de 2014
Humanidade atropelada
Humanidade atropelada
“Enquanto o tempo acelera e pede pressa, eu me recuso, faço hora, vou na valsa...a vida é tão rara” (Lenine)
O trânsito de nossas cidades revela o nosso comprometimento pessoal e coletivo com a esquizofrenia e a imposição dos números. Passo Fundo, cidade do norte do Rio Grande do Sul, vive em 2014 a supremacia dos números, de carros. Segundo estudo do arquiteto e urbanista desta cidade, Daniel Bueno, nossa cidade dobrou o número de carros em relação ao número de habitantes, no período de 2006 a 2009. Estarrecedor!
Cabe então uma singela reflexão sobre o porquê da supremacia das máquinas e dos motores. O fato é que reduzimos nossas vidas a uma competição com o tempo. O que é a pressa senão a pretensão de reduzirmos tempo? O que é a correria senão querer fugir do lugar para chegar a lugares, e mais lugares? O que é a velocidade senão acelerarmos nossa louca correria.
Tudo corre muito ligeiro, mas o percurso e o desenrolar da vida segue regular. O tempo foi inventado pelos homens, mas a vida não. Enquanto aceitarmos que os números se imponham ao ritmo natural da vida, continuaremos lamentando o número de vítimas.
Aliás, o que são as vítimas além de números? Não nos assusta mais saber que, em apenas 05 meses do ano de 2014, 21 pessoas perderam suas vidas no nosso trânsito. Para ficarmos nos números, em 2013 foram 18 mortos. O que é que são 18 ou 21 pessoas mortas? O que elas representam diante de um total de quase duzentos mil habitantes?
Concordo com a afirmação das autoridades do trânsito de nossa cidade, de nosso estado e de nosso país de que os motoristas e pedestres são parte da culpa dos nossos acidentes. Que boa parte dos acidentes poderia ser evitada (sempre se...). Mas não posso ficar na mera constatação sem perguntar pelas causas. As causas, todos nós devemos investigar.
Cadê a nossa humanidade? Será que ela foi atropelada pelos números?Será que a organização do trabalho, da economia e do cotidiano das nossas cidades não está nos levando a uma mais completa loucura? Dizemos sempre que estamos correndo, mas nem sempre sabemos para onde nem atrás de que.
Fiquei pensando no que é mesmo esquizofrenia. Pesquisei e descobri que “esquizofrenia é uma doença psiquiátrica endógena, que se caracteriza pela perda do contato com a realidade. A pessoa pode ficar fechada em si mesma, com o olhar perdido, indiferente a tudo o que se passa ao redor ou, os exemplos mais clássicos, ter alucinações e delírios. Ela ouve vozes que ninguém mais escuta e imagina estar sendo vítima de um complô diabólico tramado com o firme propósito de destruí-la. Não há argumento nem bom senso que a convença do contrário.”. (Dr. Dráuzio Varella, médico psiquiatra).
Concluí então que transito pode combinar com esquizofrenia. Não é louco?
(Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos)
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