22 de abr. de 2014

Mestres e religiosos

Mestres e religiosos

Nei Alberto Pies *
 
Reencontrei-me com meus alunos, em mais um início de ano letivo. A maioria, já conheço, reconhecendo, com certa facilidade, as suas capacidades e também seus limites. Com certeza, também eles reconhecem e sabem das minhas capacidades e "jogam" com os meus limites, espertamente. Os alunos são muito hábeis para jogar com os limites de cada professor.
Um aluno novo, do sexto ano, fez uma constatação interessante. Logo após expor para a turma, de forma entusiasmada, o sentido do Ensino Religioso para a formação integral do ser humano e para a construção do sentido da vida, o aluno me interrogou: -O senhor deveria ser pastor ou padre -. Imediatamente, sem pensar muito, respondi: "nem padre, nem pastor ou líder religioso, eu prefiro ser professor. Se fosse padre ou pastor, falaria apenas a partir de uma religião. Como professor, posso apresentar e falar de várias religiões, sem comparar e nem desmerecer uma em detrimento de outra".
Que pilha este aluno me deu! Mais entusiasmado, conversei com os alunos sobre o que é e o que não é Ensino Religioso, pois ainda existe muita confusão de pensamentos, ideias e práticas desta disciplina. Conversamos ainda sobre a importância de conhecer as manifestações do sagrado e do Transcendente nas diferentes religiões ou tradições religiosas, com o propósito de respeitá-las.
Como em todos os inícios de ano letivo, descobri, mais uma vez, que vale muito ser professor de Ensino Religioso. O Ensino Religioso, no atual paradigma, cumpre importante papel na formação integral do ser humano, no reconhecimento das dimensões históricas, psicológicas, sociais, culturais e religiosas de cada ser humano e de todo mundo.
Mestres ou religiosos, pensei que devemos nos tornar sempre boas e respeitosas referências de vida e de conhecimento para as diferentes juventudes que estão a desabrochar. Juventudes que perguntam.Juventudes que nos desafiam. Não esqueçamos, ainda, de integrar os diferentes conceitos, habilidades e atitudes que as outras áreas do conhecimento despertam em nossos adolescentes e jovens. Não esqueçamos, também, de integrar às nossas aulas os diferentes saberes que são gerados na comunidade, nas famílias, nas ruas e no cotidiano de todos nós. O Ensino Religioso, como os demais conhecimentos, nem sempre cabem num livro, num caderno ou numa lousa. Os conhecimentos cabem mesmo é em nossas vidas!
 
* Nei Alberto Pies é professor e ativista de direitos humanos.

7 de abr. de 2014

Saber sem conviver?

Saber sem conviver?

As palavras desejam pousar. Querem fazer-se passar pela metamorfose das ações humanas. Elas movem o mundo, movem as pessoas, movem os professores e as escolas. Neste movimento das palavras, enriquecem-se os conceitos e os ideais de vida, de mundo e de humanidade. Prazer maior não há do que compartilhar conquistas de um saber aprendido e apreendido, onde protagonizam educadores e educandos. O prazer maior nas relações de ensino-aprendizagem está na construção do conhecimento como algo útil, agradável e capaz de desencadear alegria e realização. Afinal de contas, para que serve o conhecimento senão for para a felicidade?
Viver para a dignidade parece ser a razão maior de nossas vidas. Mas a dignidade humana só será conquistada por cada ser humano quando cada um e cada uma compreender sua condição de sujeito de direitos e for protagonista de sua história. É o que também podemos denominar emancipação. É por isso que uma cultura em e para os direitos humanos se faz com base na democracia, no respeito às nossas diferenças e na vivência cotidiana de nossos direitos. E a emancipação só virá acompanhada pela educação. Já disse Paulo Freire que “se a educação sozinha não transforma o mundo, sem ela nenhuma transformação acontecerá”.
Ações educativas verdadeiras apontam o caminho para que as palavras tomem assento na vida de cada um e cada uma de nós. Como diz Cecília Meireles “as palavras precisam pousar”. Elas precisam encontrar âncoras para seu pouso, pois “palavras voam, às vezes pousam”. Nem todas as palavras precisam pousar, interessa que pousem aquelas capazes de nos ensinar a viver melhor.
Sempre é tempo de aprender desaprendendo. Desaprender racionalidade para entender emoções e sentimentos. Desaprender preconceitos para construir conceitos mais significantes. Desaprender quem somos para perceber que sempre somos um quase-eu. Desfazer racionalidades para gentificar-se, através das nossas relações de amorosidade. Desaprender falar, para aprender a ouvir, no silêncio e na solidão de cada um.
Eduardo Galeano, em seu poema O Mundo, desafia a cada um e cada uma de nós, na sua condição de sujeitos de sua história e de seres, na sua diferença. Conta em seu livro, “O livro dos abraços”, que “um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas. - O mundo é isso – revelou. Um montão de gente, um mar de fogueirinhas. Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo”.
Nossa fome de saber deve traduzir-se, na prática, como busca para transformar ideias em ações. Ações em favor da humanidade que existe em cada um, em nós e em todo mundo. A nossa fome de saber é, igualmente, fome de humanidade. E o segredo de conhecer está muito ligado à necessidade de conviver. O egoísmo de não conviver gera a incompreensão de nós mesmos e dos outros. E diminui as oportunidades de felicidade, matando o desejo latente de vida, vida que morre quando não é compartilhada


Nei Alberto Pies, professor e ativista em direitos humanos.

4 de abr. de 2014

Mediações para humanizar



Mediações para humanizar

"O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: "Se eu fosse você". A gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. (Rubem Alves)

Os alunos acumulam um grande déficit na escuta. Em compensação, extrapolam todos os seus limites em outra perspectiva: falar.  Os professores e professoras, por sua vez, numa sala de 20 a 30 alunos, enfrentam grande prejuízo que envolve a sua função na educação: escutar. Professores e professoras usam demasiadamente a única arma que ainda apresenta alguma eficácia: a sua voz. Esta, por sua vez, ecoa em gritos como último recurso para chamar atenção de seus conteúdos e manter a disposição dos alunos para propósitos de uma sala de aula.
Acredito nas perspectivas dialógicas da educação, mas confesso que pouco consigo fazer em um período semanal de 45 ou cinquenta minutos. Tenho experimentado, timidamente, conversar com alguns dos muitos alunos que tem frequentado nas minhas aulas. Esta conversa, no entanto, sempre precisa de alguma mediação de algum colega da escola. Geralmente converso com alunos nos intervalos chamados de “janelas” no ambiente escolar. Sinto a necessidade de conversar fora do calor das discussões e dos “nervos à flor da pele”.  Nesta hora, o professor é quem convida o aluno a conversar, numa iniciativa propositiva e positiva.
Chegar junto ao aluno para escutá-lo é um grande aprendizado. Dizer a ele que você está aí para escutar, sem julgamentos nem imposições, revela-se maneira eficaz de construir vínculos. Processos educativos que não permitem vínculos reais entre os sujeitos aprendentes não tem valor significativo para ninguém. Muito provavelmente, a grande maioria de nossos alunos não tem em suas casas uma relação dialógica de convivência, por isso mesmo convidar para o diálogo lhes causa um grande estranhamento.
Existe uma grande riqueza nas práticas de convivência humana, mas nem sempre acreditamos o suficiente nisso para nos encorajar em atitudes.  Como afirma Rubem Alves, todo mundo precisa mais de quem escuta do que quem fala bonito. A sensibilidade do autor refere ainda que os seus mais significativos aprendizados não foram ensinados através dos livros, mas “prestando atenção”. Infelizmente, nossas intervenções na vida, na convivência e nas relações interpessoais estão cada vez menos pautadas pelas vivências empíricas.
As experiências da escuta e da fala, quando significativas, revelam que devemos acreditar nos ricos processos desencadeados numa perspectiva dialógica do conhecimento. Observamos que dialogar com os alunos na perspectiva de ouvir as suas razões, sentimentos e incompreensões muda a percepção dos mesmos em relação a si, aos outros e com o mundo. Por isso mesmo, deveríamos ter a coragem e a ousadia de transformar nossas escolas em permanentes laboratórios de diálogo e de escuta, envolvendo diferentes tempos e lugares, com alunos, pais e professores. Separados ou misturados.  A nossa persistência nesta tese nos levará, inevitavelmente, a seres humanos mais humanizados e equilibrados. Humanizar-se é o maior desafio humano!

Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos

19 de mar. de 2014

Participar é direito humano

Participar é direito humano
            O ano de 2014 iniciou com a democracia renovada, a partir do advento das manifestações de rua e manifestações virtuais desencadeadas a partir do ano de 2013. Podemos marcar 2014 como um momento histórico de afirmação da cidadania, através da participação, direta ou indireta, nas eleições gerais, nas manifestações pacíficas e cidadãs organizadas pela sociedade civil, nas greves e manifestações de trabalhadores por melhores condições de trabalho, nas comemorações da Copa do Mundo. 2014 lembra ainda um passado controverso e complexo de luta do povo brasileiro por cidadania e liberdade: 30 anos da luta pelas Diretas Já (1984), 50 anos do Golpe Militar (1964) e 35 anos da Lei da Anistia (1979).
            A CDHPF (Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo), em parceria com universidades e organizações sociais, deseja afirmar a participação como um dos direitos fundamentais da democracia e da vida em sociedade: a participação. Promove, mais uma vez, um evento nacional de debates sobre os desafios da implementação dos direitos humanos: o VI Colóquio Nacional de Direitos Humanos. O evento ocorrerá em Passo Fundo, nos dias 22 a 25 de abril de 2014.
            O Colóquio é dirigido a estudantes de graduação e pós-graduação de várias áreas do conhecimento, professores do ensino superior e da educação básica, profissionais de diversas áreas, lideranças de movimentos e organizações sociais. Tem por objetivo debater, de forma ampla, aberta e plural a “participação como um direito humano”, a fim de sensibilizar e comprometer a todos com a luta por sua efetivação no cotidiano de todos e de cada pessoa.
De qual participação estamos falando? Quais estratégias, fundamentos e dinâmicas serão capazes de permitir o verdadeiro protagonismo cidadão?
A participação nasce das diferentes práticas sociais, políticas e educativas que permitem a construção de “sujeitos de direitos”. Somos todos livres, autônomos e responsáveis pelas lutas e pelas conquistas de uma vida na dignidade, pela melhoria das condições de vida e de trabalho, pela ampliação dos nossos direitos, pela materialização dos direitos já conquistados.
A participação é um processo ativo, de protagonismo pessoal e coletivo, crítico, plural e que contempla os diferentes pontos de vista e interesses. Esta compreensão de participação supõe que todos, e cada um e cada uma de nós, torne-se sujeito de sua vida e de sua história, não esperando que os outros nos concedam benefícios ou privilégios, em troca de nosso silêncio ou omissão.
            A participação, junto com a liberdade de expressão e a organização são condições fundamentais para que uma sociedade crie as condições para a afirmação e vivência dos direitos humanos. Em contextos cada vez mais dominados pela lógica do consumo e da competição, abrir condições para a participação se constitui em desafio, visto que é cada vez mais forte a vigência do individualismo que vai desobrigando da participação e advogando relativismos que podem por em risco as conquistas de direitos tanto individuais quando coletivas.
            Importante lembrar que “direitos humanos são conquistas”. E conquistas não surgem da apatia, mas da disposição de cada brasileiro e cada brasileira viver plenamente o seu direito de decidir, de falar, de viver e de conviver, em todos os lugares que a cidadania nos invoque.
Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos.

27 de fev. de 2014

Não é crime lutar

Não é crime lutar

“A essência dos Direitos Humanos é o direito a ter direitos"
(Hannah Arendt, filósofa)
Há tempo que a criminalização daqueles e daquelas que lutam por melhores condições de dignidade humana vem sendo denunciada no Brasil e no mundo. É inaceitável, numa democracia, que a violência instituída seja aceita como normal e necessária. O Estado, instituído como guardião dos direitos, viola os mesmos quando reprime, violentamente, através das ações policiais, aqueles e aquelas que, pacificamente para buscar educação, terra, trabalho, saúde, segurança, lazer.  
Ordem, associada ao progresso, parece mover o imaginário daqueles que tem a ilusão de uma democracia ideal. A democracia acontece nas contradições, na dureza da cidadania cotidiana, difícil de ser construída. Nem todos estão convencidos de que a democracia pode conviver com uma “certa desordem”.  Como já escreveu Juremir Machado da Silva, “não existe democracia sem caos, confusão, entropia. A democracia é o sistema do dissenso. Na verdade, a democracia é um equilíbrio instável de ordem e desordem. Em alguns momentos, a desordem é mais importante do que a ordem. Tudo, claro, depende do grau de ordem e desordem”.
A criminalização é a face perversa do Estado e da sociedade que não permitem que a cidadania seja exercida na perspectiva dos “sujeitos de direitos”. Quem luta por seus direitos, e pelos direitos dos outros, é ligeiramente taxado, acusado e condenado sumariamente. Os estigmas e preconceitos sociais atribuídos àqueles que lutam anulam a vivência de uma cidadania plena e ativa.
O diálogo, em busca dos consensos possíveis, constitui a ordem democrática, muito antes das leis e das imposições arbitrárias. Quando perdemos a capacidade de escutar, de sentar à mesa para negociar, não chegamos a consensos e acordos que, mesmo que provisórios, são sempre necessários para qualquer perspectiva de avanço dos direitos em questão.
A democracia nasce das palavras, da retórica e da persuasão. Por isso mesmo, manifestar-se não pode significar só gritaria, de um lado, e repressão, de outro. Sempre é preciso colocar os pleitos à mesa, estar aberto para ouvir e dialogar. Quem responde pelo Estado, bem como quem marcha nas ruas, precisa colocar-se em movimento, para construir soluções e encaminhamentos provisórios. Ninguém sai de uma manifestação com os direitos já conquistados, mas toda manifestação pode indicar avanços para a materialização dos mesmos. Nesta perspectiva, temos todos muito que aprender. Como escreve Marcos Rolim, “a democracia que temos já não tem política. Nela, o futuro se ausentou porque as palavras não autorizam expectativas. Será preciso reinventá-la, entretanto, antes de desesperar. Porque o desespero é só silêncio e o melhor do humano é a palavra”.
Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos.